Recebi o convite da querida Beatriz para colaborar com este blogue.
19/04/2021
14/04/2019
O sul de todas as almas, resenha de "Um Bourbon para Faulkner", de Marco Fabiani

25/07/2018
Ultrapassando as fronteiras do real, em A perpetuação da espécie, de Fernando Andrade
por Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)
25/06/2012
24/06/2012
09/05/2012
De quando o livro não é a salvação, por Ronaldo Ferrito
ORIGINALMENTE PUBLICADO NO PORTAL MUSA RARA - Literatura e Adjacências - http://www.musarara.com.br/de-quando-o-livro-nao-e-a-salvacao#comment-864
12/04/2012
Prosa de palavras, de Karen Debértolis
11/04/2012
domingos em nós, de Beatriz Bajo
rio sou francisco, de Chico César
Cosmogramas, de Marcelo Ariel
Não tenho pena do poema, de Reynaldo Bessa
14/02/2012
O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene

30/10/2011
Cantáteis, de Chico César
1
seu poeta preferido
bem antes de ser ferido
já era ferido antes
não visitou as bacantes
as nereidas e as ninfas
quis beber de sua linfa
esperou e não morreu
esse poeta sou eu
de lira desgovernada
deliro musa amada
órfão bisneto de orfeu

nem parnaso nem concreto
o amor analfabeto
não lê poemas de amor
tanto faz lápis de cor
ou computador que escreva
a linguagem mais longeva
que o amor reconhece
é o próprio amor, sua prece
é a pane do motor
é o silêncio do tambor
é a bomba na quermesse
55
sei que no tatuapé
ninguém lê lou salomé
nitzsche rilke nem paul rée
ninguém não: lá tem você
e deve ter mais uns poucos
toda terra tem seus loucos
profetas visionários
tem quem ganha altos salários
e escondido come merda
e o lindo bebê que herda
sangue podre funcionário
78
morte e vida severina
pro filho de etelvina
circo césar circunspecto
claríssima lispector
luz na alma das mulheres
sou cantor não sou alferes
confidente esquartejado
mas na praça do mercado
minha língua tagarela
canta ainda o nome dela
doce morango mofado
Chico César nasceu em Catolé do Rocha, na Paraíba, em 1964. Aos 16 anos foi para João Pessoa, onde se formou em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, enquanto participava do grupo Jaguaribe Carne, que fazia poesia de vanguarda. Aos 21, mudou-se para São Paulo. Trabalhando como jornalista e revisor de textos, aperfeiçoou-se no violão, multiplicou as composições e formou um público. Hoje tem uma carreira artística de repercussão internacional. A maioria de suas canções são poesias de alto poder de encanto linguístico.19/03/2011
Maria Bethânia canta "O doce mistério da vida"
A gritaria contra o blog de Maria Bethânia é uma mistura de ignorância, preconceito e mau-caratismo.
Ignorância, porque parte de idéia absolutamente falsa de que os produtores do blog – que pretende exercer a tarefa vital de divulgar a poesia – recebeu ou vai receber este dinheiro do governo. Juro que tenho saudade do tempo em que se lia fato ou ficção, hoje o que mais há são equívocos e mentiras, que não são um nem outro. O fato é que a única coisa que os produtores do blog receberam do governo foi a autorização para se humilhar, pedindo a empresários, de porta em porta, que considerem a possibilidade de, ao invés de entregar parte de seus impostos ao governo, patrocinar, com a vantajosa exposição de suas marcas, um blog de uma extraordinária artista brasileira, blog este que tem como objetivo divulgar a poesia, não há tarefa mais nobre. Nada garante que os produtores do blog terão sucesso em sua jornada de mendicância entre a elite empresarial brasileira, frequentemente iletrada. O mais provável é que consigam apenas uma parte desta verba e tenham que redimensionar o projeto, o que seria uma pena. Na minha opinião, o governo brasileiro deveria tirar do seu caixa o dinheiro (1,3 milhões de reais, uma ninharia perto da roubalheira do Detran gaúcho, dos pedágios paulistas, da máfia do governo Roriz/Arruda no DF, etc, etc...) e entregar para a Maria Bethânia, junto com um buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão.
Preconceito contra a internet, porque – como muito bem lembrou o Andrucha, na Folha: "Se fosse documentário ou filme para ser visto por cinco mil pessoas no cinema, ninguém estaria reclamando. Parece que internet não é um meio válido. Lá [no blog], os vídeos vão ser vistos por milhões, e de graça”. A distinção que alguns ainda fazem entre os meios cinema, televisão e internet seria engraçada se não fosse um empecilho ao desenvolvimento do país. Preconceito também contra os nordestinos, nas críticas sobram piadas contra os baianos, quase todas vindas do mesmo gueto branco direitista no enclave paulista, enfim, os eleitores de Kassab e Serra, gente que lê e cita a revista Veja e beija imagens de santo para ganhar voto e acha que poesia é "uma besteira".
Mau-caratismo, porque a “polêmica” criada pela notinha da Mônica Bergamo assanha, para variar, o furor udenista que almeja – e obtém – manchetes moralizadoras. “Eu sou melhor que você”, gritam o lobão e também os três porquinhos, unidos em sua santa cruzada. Um publicitário engraçadinho – mais um – fez um blog que lhe garantiu seus 15 minutos de fama, espinafrando a Bethânia. "Criei o blog porque não recebi uma bolada do MinC e achei injusto", comenta o pândego. Pergunta: era para ser um piada? Ele pediu algum dinheiro ao MinC? Em caso afirmativo, apresentou algum projeto? Qual seria? Com que objetivo? As críticas e piadinhas sobre o caso me fazem lembrar de uma das considerações de Hamlet, matutando se vale a luta ou é melhor acabar com a agonia: “o achincalhe que o mérito paciente recebe dos inúteis”. (Na tradução do Millôr.)
Chega a ser constrangedor ter que relembrar aos mais jovens que Maria Bethânia é uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos. Seus incontáveis discos e shows são um valioso patrimônio nacional, seu trabalho de divulgação de dezenas de compositores brasileiros ao longo de sua carreira são uma herança que ela deixa ao Brasil. Bem vale alguns barris do pré-sal. Talvez tenham sido os show de Bethânia, lá nos anos 70, meus primeiros contatos com a poesia de Fernando Pessoa e também com a prosa-poética de Clarice Lispector. Vai aqui, a ela, meu muito obrigado.
dica de Ana Rüsche: um blogue que reúne poetas, atores e videomakershttp://fubap.org/365poemas/
26/02/2011
Sarau Sereia Ca(n)tadora


Serviço:
Sarau Sereia Ca(n)tadora
SESC Santos
24/02/2011
SILVAREDO É A COLHEITA DE WILMAR SILVA. OU NINHO OU ROSÁRIO OU ESPINHO?
Silvaredo é a colheita de Wilmar Silva. ou ninho ou rosário ou espinho? é de Silva e de Minas o que pousa no caule-livro do que se planta nos pés dos olhos arrebatados por arranjos de pássaros e flores, solo de colibri, pardal de rapina, anu e salmos verdes, seus cinco livros dentro do Silva, a coleção deste: SILVAREDO.
Quando o vento sacode os versos, corrompe as palavras: “eu-curió, exangue, por t, despetalo-me” (36). E o pássaro bule com a pássara por meio de vocábulos onomatopaicos - "onde eu-rouxinol, chilreio agudos por ti"(46) - que verbalizam a ânsia do eu-lírico, assobiando aos interlocutores – haja vista a frequência de vocativos: “floro, palmas eu-estuário, planície/ de sapotis, onde te canto, ó patativa /” (23).
As palavras ganham cor em seu atrevimento de personificar aves e flores e inverter suas formas e cortá-las em arranjos de pássaros e flores. No entanto, o corte é interno e o poema é lamento denso, profundo e coalhado de antíteses e dores em tons terrosos. Wilmar é rocha que se arrebenta quando a água vai cair e vira pássaro e voa com as asas dos versos em eclipse, em elipse, todavia resplandecentes, como em "
eu, vertical, crispo nuvens de juncos
e zabelê, percebo, eu solcris em eclipse
clave e vermelho, poente – fogo e archote
em clima de erosão, te entorpece,
ó alado arcanjo que eu chamo de ariel,
antes todo vale em aclive pelo declive
agora, aqui – sobre a origem da água,
desvio por igual, retinas em debrum
íris afluentes – neve, aragem, brisa leve
que rasga nenúfar / oceano e sertão (29)
Em solo de colobri, há fabricação de ninhos e volúpias. Sempre a escolha é por palavras enérgicas, remetendo à virilidade masculina e à força da natureza: “sob a neblina da primavera/ rompo [ grafo pela sesmaria, no cume e montanho/ crisântemos acesos ao sol/ na clave do olhar, melnéctar” (57). O eu-lírico não metaforiza os elementos naturais, mas estes se manifestam naquele, como em “montanho”. Nomes são verbos através dos quais o poeta se transubstancia.
Em pardal de rapina, novamente aparece a sensualidade e a caça pela beleza – feminina –, já que há poemas cujos títulos são referências a deusas como Afrodite, Vênus, Tétis, Dríade, além de Noiva e de Eros, deus do grego amor (cupido): “varou em mim tua papoula/ de ópio e ouro nos lábios/ erotizou-me tua pássara/ antes fugidia e fugaz” (87).
Em outro momento, Wilmar retorna às raízes, às corrosões: “onde habita a insana/ a seiva e a via-láctea/ sou punhal e púpura” (99), às sedes e às esfomeadas aspirações poéticas, ainda que inconsoláveis como em lenitivo “mesmo que eu faça um poema/árido e torrencial é o sertão” (101) ou em o pão: “ouço teu ir dentro da noite/ e fico preso em mim” (114). No entanto, embandeira, alguma fagulha de esperança lambe suas letras: “longe de mim e longe de ti/ aves ganem no inverno da noite/ crianças ilhadas à lua/ haverão de molhar as almas” (117).
Em “anu”, a poética wilmariana configura o céu das palavras – estas brancas dentro de um quadrado preto, distinguindo-se da outra brancura das páginas –, fabrica-as, remodela-as, constelando significados: “poçudespelhosáslisárguacor” (127), desdobrando o sistema linguístico como se desdobra o firmamento...basta prestar atenção e as imagens surgem no céu, feito palavras...assim como a abertura que o poeta comete em seu livro curiosamente semeado de estrelas visuais e sonoras.
Também o eu-lírico é um chacal, animal carnívoro de hábitos noturnos, caçador que se alimenta de carcaças concretistas, antropofágico poeta rasgando verbos dentro da galáxia semântica que fulgura assim assim:
triçaentrioandorinhasanu
antespeleveredaeupaulavra
viropássarosoumesmoanu
perdíceonocoraçãodeminas
essepassarinhosóldscamiar
riomarnointeriordasgraiz (156)
Em “salmos verdes” há brancos à esquerda e versos à direita. Silêncio e expressão. Um antes do outro...como tem de ser. E fusões e entroncamentos nas repetições de palavras roda-vivas e de conectivos sem tempo, como num transe, seções em ramos...remos? rezas? Ruídos? Há sempre lágrimas em cada prece-poema: “mina d’água para roda d’água/ fazer flor d’água” (169) ou:
o tigre abatido na caçada de espingarda e curupira
a pele do tigre exposta para mirar e farejar
e passar a pele das palmas e puxar a pele das plantas
e tocar de leve e comprar e levar para expor no mármore da casa
e depois e sempre pisar sem pena e nem dó
pisar com as plantas como se pisa na terra que também tem alma
e pode chorar e está chorando e chorando torrencialmente
e mais que a chuva e muito mais que a tempestade
essa tempestade toda
só de poemas que eu tenho lá na entranha do meu sangue (195)
O poeta é pujante com a árvore significativa de sua sagrada escritura porque recorta angústias nas melodias de papel: “ah dói mesmo é pensar que sou humano// fosse primitivo meu olho de farol/ e meu ouvido cata-ventasse” (165), roendo os enfeites apalavrados na trama mais descosturada de sua poética: “essa América esse Brasil esse triângulo/ rio paranaíba e acordasse o mundo de estilhaço” (197). Tudo é roto, corroído e arde, pode ser estarrecedor, mas paradoxalmente é de uma delicadeza ímpar...aqui, Wilmar é verde, seiva radicada no poeta, original como é a poesia, banhada com a sacralidade de cada verso alimentado deste sangue tão dele que é nosso.
O livro nos ramos do corpo, outra forma de prová-lo:




















