19/04/2021

Teste

 Recebi o convite da querida Beatriz para colaborar com este blogue.

14/04/2019

O sul de todas as almas, resenha de "Um Bourbon para Faulkner", de Marco Fabiani

O sul de todas as almas

Beatriz Bajo

Havia algum tempo que eu não lia um romance que me abraçava. Estava curiosa por descobrir as páginas de “Um Bourbon para Faulkner”, do amigo querido Marco Antonio Fabiani, também radicado em Londrina.



O título do livro, a princípio, distante daqui, como foi se chegando perto de mim...
Usando como mote para a história a passagem do escritor Faulkner no Brasil, mais precisamente um Congresso de Escritores em São Paulo, do qual o ganhador do Nobel de Literatura de 1949 era o convidado especial, Fabiani costura, entre muitas outras instabilidades, o ambiente político que culmina com o suicídio de Getúlio Vargas em 1954.
O encontro de o garçom do Hotel Esplanada, João Clark, com a personalidade norte-americana é um grande evento para as vidas que se leem por esta obra. As solidões de descendentes de imigrantes, arrancados pela raiz e lançados ao mundo, aproxima os dois homens que carregam em seus peitos fragmentos de derrota, cacos de uma terra em ruínas.
Aparentemente, tão distantes, garçom e escritor são “sementes da mesma espécie brotando em terras diferentes” e descobrem-se amigos intensos. Faulkner exercitando a audição para suas histórias; Clark, na medida em que contava de si, forjava sua própria existência. A sua voz, nunca relevante, tornou-se, assim, substância para o escritor e ecoou na alma do garçom, que passa a tornar-se senhor do seu destino, lentamente.
Os dois são descendentes sulistas da Guerra da Secessão norte-americana e isso acaba por tatuar nos dois uma cumplicidade rara em que, ao longo do livro vai se equilibrando. O escritor exercita a humildade e se desnuda e o garçom se avoluma até percebermos a amizade genuína. No entanto, durante a leitura, há muitas dores: “a violência nasce do medo da própria vida” e não posso negar que tudo isso não tenha me afetado. Eu, aqui no sul do Brasil, filha de imigrante, aperfeiçoando por toda a vida as solidões e os estilhaços do não-pertencimento, acabei por encontrar na literatura o caminho para a comunhão.
Faulkner diz lindamente que esses homens isolados que “expandiram os limites da alma da América...É para eles que sempre olho e penso quando escrevo.” Então, Fabiani escreveu especialmente para mim...foi incrível lê-lo.
Sobretudo, foi surpreendente conhecer Jonas, o pedreiro nordestino que dividia o quarto com Clark, e notar o brasileiro ensinando a seu companheiro a coragem para lutar: “Vou conseguir sim (trazer meu irmão da Bahia), ou não me chamo Jonas, nome que honra aquele que sobreviveu na barriga de peixe. Um homem como eu, tem que aprender ter couro duro, porque não sou dos que vieram para ganhar. Sou dos que vêm com a derrota marcada na testa desde o dia que vê a luz. Se quiser virar o jogo tem que ser muito forte.”
Mais do que suas profissões que, aparentemente, distinguem as pessoas (personagens), esse livro acerta quando traz a confluência da humanidade dos homens, os sofrimentos se igualam, aproximam e, se compreendem numa corrente lúcida de fraternidade.
Em tempos de literatura para estranhar...para chocar...este me conforta, reconhecemo-nos como leitora e livro em um caloroso abraço. E por ser facilmente digerível, não perde em maestria...aquela simplicidade que só um talentoso escritor alcança.


FABIANI, Marco. Um Bourbon para Faulkner. Londrina: Kan, 2018.

Marco Fabiani é médico cardiologista em Londrina, autor dos volumes de contos Trilhas do Fogo (2004), Contos de Pau e Pedra (2005) e Histórias de um Norte tão velho (2009). Também é autor do romance A Memória é um Pássaro sem Luz (2013), todos publicados pela Atrito Arte. É membro da Academia Londrinense de Letras, Ciências e Artes.

25/07/2018

Ultrapassando as fronteiras do real, em A perpetuação da espécie, de Fernando Andrade



por Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

O novo livro de poemas de Fernando Andrade, A perpetuação da espécie (Penalux, 2018), nos vem falar de uma ultrapassagem (dos gêneros, do tempo, da circunscrição à nossa própria espécie). Avançar sobre as margens que nos toldam enquanto humanos parece ser a máxima de sua obra excepcional. Digam-se, as margens com que fomos fabricados pelo senso comum, pela esqualidez de um sistema fechado em binarismo e algarismos perfeitos. Fernando Andrade utiliza uma linguagem experimental infensa aos ditames de uma lógica ocidental. Sua lógica é outra, não caótica, mas criativa e inaugural a espantar os fantasmas de uma gramática perfeita e engessada.
Este livro fabrica auroras e ocasos, luzes entremescladas de afetos e lembranças que se movem em liberdade. A liberdade de criação pulsa neste poeta magistral que utiliza a língua a favor de uma revolução estilística. O autor carrega uma marca toda própria. Não imita padrões e subverte a língua num propósito que alia som e imagem. As fortes aliterações produzem imagens dilacerantes a cortar a carne do mundo. Expõe com fluidez nossa dose de humanidade além dela própria a perpetuar espécies além do tempo, das memórias e dos gêneros, toda uma indumentária que é criada por uma sociedade falida em receitar doses narcóticas de empobrecimento em nossas identidades. A identidade aqui não é regida pelos padrões do bom comportamento. Temos identidades várias que brincam com o tempo mortal dos sentidos.
“Sejamos breves, homens//Mas sejamos intensos, inteiros”, diz um dos poemas do livro. Apesar do tempo que nos corrói e nos mata, a ultrapassagem dele é feita pela intensidade de nossos anseios, de nossos desejos que não nos sucumbem, mas nos faz nos elevar através dos instantes mais passageiros. Pois é a partir do desejo que nós nos perpetuamos, que nos criamos ao longo dos tempos. As páginas da escrita se enchem de versos sonoros a amortizarem nosso vazio e descompasso. Quanta sonoridade em seus textos, que trazem os voos plenos de vida e beleza. Sua obra fala de vastidões apesar do tom cotidiano de seus versos. É um sublime desacostumado com as horas do mundo. Um sublime que aponta sua lança para o alto, para além das fronteiras terrestres e físicas.
Com fina ironia, riqueza de linguagem e estilo próprio, o autor por ora aqui apresentado nos leva a outros rumos, diferentes da malha com a qual nos acostumamos no real. Sua poesia frutifica, arrebenta os alicerces no qual fabricamos nossos mundos em miniatura. Seu mundo é vasto, do tamanho de todo o universo. Deleita-se com os sonhos acalentadores dos desejos. O amor para além da banalidade do real nos impulsiona para adiante e nos faz desbravadores de projetos inimagináveis.
 A imaginação pulsante de Fernando Andrade nos leva para o terreno dos mitos também, que não se prendem ao conteúdo desgastante do nosso cosmos circundante. Portanto, nessa obra inventiva de Fernando Andrade, temos um autor que ultrapassa as fronteiras do que acreditamos ser mais sólido no nosso mundo, trazendo a vida aberta aos vários sentidos do real. Sua voz polissêmica e plural é o gatilho para novos sentidos e deslumbramentos. Sua poesia nos conduz a percepções várias, fragmentando a realidade em tons maiores. Seu livro vai deixar marcas perceptíveis em várias gerações, perpetuando linguagens ricas e diversas, alterando sentidos e trazendo a novidade e o frescor de uma poética verdadeira.

09/05/2012

De quando o livro não é a salvação, por Ronaldo Ferrito



Considerações fenomenológicas aos best-sellers ou De quando o livro não é a salvação

Ao amigo Aderaldo Luciano,
admirador convicto de Tom Clancy

Não faz muito tempo, estava reunido com alguns colegas num bar da Álvaro Alvim, centro do Rio, após o lançamento do livro de um amigo comum, que não somou mais de 30 pessoas. O curioso desse número não era tanto a óbvia escassez de leitores interessados em autores novos e sem renome, senão o seu caráter de pura cumplicidade. Dos presentes, a maioria, não por acaso, era de escritores – que garantiam ali uma visita recíproca quando fossem o autor da vez –, e a restante minoria contava alguns poucos parentes, que já na primeira hora da noite se retiravam, demonstrando estarem apenas cumprindo um suposto papel de família: o de apoiar, mesmo a contragosto, os projetos mais desacreditados de seus consanguíneos. Depois deste quadro em crise, o clima humano em nossa mesa foi o mais nublado possível para uma comemoração; pelo menos até o momento em que um dos colegas, após um gole lento de cerveja, nos lançou seu gracejo inesperado: “estou escrevendo um best-seller!”. Todos rimos agradecidos pelo lampejo de alegria, mesmo nos sendo evidente que, além do anacronismo, a frase nos propunha uma lamentável incoerência.

Se, por um lado, a ideia de um livro se arvorar em best-seller (o mais vendido) – mesmo antes de estar nas livrarias – causa entre escritores e intelectuais algum ridículo; para a máquina maciça do mercado editorial, essa mesma ideia inconsistente fundamenta o princípio vital de sua atividade, isto é: um livro só deve ser editado e distribuído se direcionado vantajosamente a um público leitor relevante. Nessa outra modulação de “público”, é preciso entender sobretudo o que passa a significar um “leitor relevante”. Certamente tal instância nada tem a ver com uma alta formação cultural de um indivíduo ou com uma exigência de leitura sofisticada. Na verdade, essa “relevância” do público leitor é muito mais simples do que isso, ela não se compromete com qualquer experiência de interlocução que possa torná-lo mais crítico, ou que favoreça sua autonomia intelectual e a consequente afirmação de uma sua diferença. Ora, ensejar diferença e autonomia seria permitir a transformação espontânea e aleatória desse mesmo público, o que redundaria no descontrole e inevitável morte de um mercado que precisa padronizar para prever suas vendas. Não é novidade que, nesta lógica de mercado, o público já deve estar pronto para receber o livro antes mesmo que ele seja lançado, ou pelo menos antes que algum crítico o tenha resenhado. Portanto, essa “relevância” editorial conta com o mínimo de experiências modificadoras deste público, se baseia na manutenção de padrões de consumidores e na eliminação de suas possíveis diferenças, em favor da formação de uma instância coletiva e uniformizada. O resultado dessa operação sistêmica é catastrófico: a privação das possibilidades do diálogo radical (porque autêntico) travado entre livro e leitor – relação que é a própria inauguração e sentido da leitura.

Nessa proposta editorial, a leitura “relevante”, que antes nos solicitava um longo período de dedicação e de constante mudança na nossa mundividência, é entendida – dentro da sôfrega dinâmica dos campeões de venda – como um procedimento simplório de decodificação de palavras e de compreensão imediata. Ela se esgota na mera satisfação e na cômoda concordância com as expetativas prévias de quem lê. Leem-se 500 páginas em um dia, sem se correr o risco de se ter que refletir sobre ao menos uma delas novamente, salvo se essa for uma ponte técnica que se esqueceu na gordura do enredo – o que não seria propriamente “refletir” sobre algo. O resultado dessa atitude de leitura, recente no Brasil, é visível em qualquer lugar, mesmo nas mesas tantálicas de escritores. O “leitor relevante” criado nesta dinâmica mercadológica, e alimentado pelas grandes editoras, é a figura já majoritária do consumidor frequente de um livro sem leitura. Nessa abstração absurda, o livro mesmo é a única coisa irrelevante (uso agora a palavra sem orçá-la na semântica do mercado). Sem a experiência real de uma leitura, o livro não é mais do que um produto alienante como outro qualquer em uma prateleira especializada; e o seu leitor, também não mais que uma ardilosa “ficção” – tanto este quanto o livro chegam mesmo a não existir enquanto experiências efetivas. Prova dessa ausência de sentido existencial, ou de autonomia de sentido, se vê no modo como tais livros nos chegam. Antes mesmo de qualquer crítico os resenhar (sem querer dar mérito a resenhas), são anunciados e sucedem um a outro como se fossem quase uma mesma obra: o sucesso de um livro anterior contamina o outro que acaba de chegar, ou mesmo o próximo que sequer foi terminado. Um exemplo atual é o recente estouro de George R.R. Martin (Crônicas de Gelo e Fogo) anunciado no Brasil com a seguinte fórmula: “O melhor clássico do gênero desde O Senhor dos Anéis”. Além de afiançar o livro como “melhor” e como “clássico” antes mesmo de ter sido terminado, o anúncio pretende obliterar todas as demais publicações, tratando-as como concorrência. Essa concorrência de fato existe nessa lógica, ela é a coesão de um público único que não deve ser dividido. O novo best-seller de G. Martin conta com os leitores de Tolkien para esvaziar as prateleiras das megastores. A estratégia aqui, longe de primar pela demarcação de uma diferença própria de um livro em relação aos demais, é a de igualá-lo a todos, para depois sobrepujá-los. Até mesmo a palavra “gênero”, que aparece despretensiosa no anúncio, revela uma setorização e uma territorialização. Não imagino possível o mesmo ser feito com autores de narrativa magistral e de intensa potência de pensamento como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos; ou Adonias Filho e Jorge Amado. Seria aniquilar as suas diferenças e autenticidades, além de que nem um leitor razoável concordaria. Dizer que “Guimarães é o melhor clássico do gênero desde Graciliano” seria demasiado contundente, seria não ter passado pela experiência de leitura de nem um dos dois. Toda essa propaganda só é possível quando um romance já nasceu no berço que os faz best-sellers. As suas vendas astronômicas nada têm de espontâneas ou acidentais. Daí aquela frase de meu amigo ser risível, embora possível e até comumente praticada. Um escritor produzir um best-seller premeditadamente é abrir mão de sua obra e de leitores reais, para servir a gigantes editoriais e alavancar consumidores de livros.

Não é minha intenção produzir argumentos contra best-seller, essa atitude seria não só inútil, mas também um ato intolerante e gratuito contra os leitores que optam apenas por fruição, num dado momento de suas vidas, fazendo da leitura um entretenimento passageiro. A questão aqui não é ingênua. Não se trata de censurar a produção de uma linha editorial com livros comerciais para os leitores, mas sobretudo rechaçar a formação de leitores para os livros comerciais. Atualmente esta é quase exclusiva. Obviamente, o mercado livresco, ainda que dominado por gigantes de linhas editoriais preeminentemente comerciais, não teria o poder de moldar um tipo conveniente de leitor brasileiro, caso esse estivesse previamente guarnecido de certo senso crítico. Essa formação crítica, porém, está hoje explicitamente ameaçada por alguns governos que, ao fazerem compras infundadas com certas editoras (não falo de editais abertos, mas de projetos prontos saídos de dentro de secretarias e fundações municipais de educação), estabeleceram planos de alfabetização e formação de leitores dentro de uma lógica absurda e aviltadora. Recentemente fui testemunha de uma implementação bibliográfica dentro de um município por meio de um projeto de formação de leitores. Com o pretexto estouvado de que os títulos novos atendiam aos interesses dos adolescentes atuais, o tempo de leitura dessas crianças foi ocupado com títulos de J.K Rowling e Stephenie Meyer, solapando não só uma certa literatura brasileira contemporânea, mas qualquer outra estrangeira de qualidade. Nesse câmbio, não se cogitou sequer escolher livros de escol em língua inglesa, claramente não se tratava de interesse na produção literária de outros países. Pergunto-me: quais foram então os critérios de escolha desses títulos? Dar a crianças a responsabilidade sumária de decidir, mesmo sem nada conhecerem de livros, pelo que é mais fundamental em sua formação de leitores seria sobretudo um ato vilipendiante – tira as condições de desenvolvimento e consequente inclusão social de uma pessoa de escola pública no único espaço formal que ela possui para tanto – e de puro mau-caratismo. E não se pode acreditar em maus-carateres que queiram agir puramente, somente realizar o mau-caratismo, sem levar consigo alguma vantagem. Essas escolhas, no melhor dos casos, demonstram menos a preocupação real e ética com a formação de bons leitores (ninguém afinal precisa de cultura literária formal e escolar para ler “Crepúsculo”) do que a busca cada vez mais obsessiva e pragmática de que as pessoas comecem a “ler”, de que sempre estejam “lendo”, “lendo”, não importando neste ato o que elas leem. Percebemos facilmente que, até mesmo no contexto da educação, vigora de modo amplo o sentido de “leitura” próprio ao mercado editorial. O poder executivo brasileiro se preocupa hoje em investir massivamente na erradicação do analfabetismo de sua população, mas tais investimentos correm o risco de tirar o indivíduo de uma situação de carestia cultural para um outro nível de precariedade: o avassalamento cultural e a sua massificação.


Ronaldo Ferrito é ensaísta, poeta e editor da Confraria do Vento. Doutorando em Poética, pela UFRJ, publicou o livro A Via Excêntrica (2010), premiado com a bolsa para escritores da FBN, na categoria ensaios literários. E-mail: roferrito@gmail.com

ORIGINALMENTE PUBLICADO NO PORTAL MUSA RARA - Literatura e Adjacências - http://www.musarara.com.br/de-quando-o-livro-nao-e-a-salvacao#comment-864

12/04/2012

Prosa de palavras, de Karen Debértolis

ARRISCO-ME ARRISCA-TE A VIDA 

Karen Debértolis, em sua “Prosa de Palavras”, coloca-nos em risco logo em seu primeiro texto. 
“Língua” nos joga na cara palavras afiadas deste deserto de asfaltos e ignorâncias em que nos encontramos. Sem meias palavras e nem doces elogios, Karen abre-nos para o livro com palavras diretas como flechas que acertam o alvo, na mosca. 
Nos textos que se seguem, suas palavras nos conduzem a imagens cotidianas, momentos de introspecção, reflexão e refinada lucidez. A dinâmica dos textos produz tensões e suspiros. Respiramos em meio a bombas, desertos áridos e cores foscas com “Pés da Nuvem” e “Amor”, como em um oásis que dá uma trégua e refaz energias para enfrentarmos novamente as areias escaldantes. 
Adiante, Debértolis continua em sua constante necessidade de nos jogar na cara (e não é de hoje e nem apenas neste seu livro que ela teima em falar incômodos) imagens que não existem aparentemente, mas as quais pulsam atrás de nossas retinas. Vislumbra sonhos impregnados, cotidianamente, em cada um de nós, para finalizar com sangue que escorre e grita da seiva da natureza, seiva que antes era refrescante e alimentava a humanidade, mas que agora, vermelha e densa, resseca as nossas almas. 
Karen Debértolis escreve como quem uiva em noites de lua cheia, como que para nos lembrar/avisar da vida, situação-espaço a ser encarada, a cada momento, antes do abismo final. 
Não existe dia possível sem um risco a ser desvendado. 

Fernanda Magalhães 
Artista, performer, fotógrafa, arriscando-se ao escrever para “A Mulher das Palavras” 

11/04/2012

domingos em nós, de Beatriz Bajo

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


prefácio da autora

o livro é uma tentativa de resgatar sóis, reacender estrelas que estão sendo opaciadas no fazimento da geleia real cotidiana. os apagamentos causados pelo sistema educacional brasileiro são um assassinato como qualquer outro e provocam máculas pra toda vida.
por isso, resolvi rasgar verbos nos versos vomitados de ira contra o processo falido da educação mascada tantas vezes em minhas experiências em sala de aula; mas abri os botões dos motivos concernentes aos aprendizados, e bordei no livro as peregrinações do ser por e para dentro de si; um caminho para a ascensão da luz interior através dos encontros com os autodidatas.
também pensando no devir, conceito surgido desde Heráclito - o filósofo discorre que a única coisa imutável na realidade é a mudança, asseverando: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti” - e retomado por Nietzsche em “torna-te quem tu és”, o livro fotografou cenas cujo tema é aprendizado e caminho para o vir a ser.
para se aprender, são necessários infância (mesmo que seja a de dentro) e asas. neste sentido, a palavra costura e cria mundos; logo, criança aqui é seiva aos versos e a chave mestra da vida e de todas as instituições falidas. só o olhar atento às singelezas pode salvar-nos do mundo sombrio.
este trabalho revela imagens a um diário ontológico impreciso, em que não há domingos.

Beatriz Bajo

rio sou francisco, de Chico César

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/



o versador de líquidos

Por Beatriz Bajo*

rio sou francisco foi o livro inspirador à criação da Rubra Cartoneira Editorial, que institui o fenômeno “cartoneirismo” no estado do Paraná. cartonerismo é um termo advindo da iniciativa de algumas editoras utilizarem papelão para a confecção das capas de livros, nascido em consequência da crise argentina de 2002, que culminou com a criação da Eloisa Cartonera e outras editoras, espalhando-se pela América Latina e atingindo alguns países da Europa, como Espanha e Alemanha. rio sou francisco, então, inaugura o selo com outros autores eleitos pelo amor. 
depois de ler Cantáteis: cantos elegíacos de amozade, fiquei assombrada com o talento poético de Chico César. seu primeiro livro merece ser lido e relido, haja vista que o poeta constrói uma rapsódia em cordel com versos enfeitiçados e desdobrados em belíssimas imagens.
sete anos depois, seus poemas tornam-se cordas feitas com tendões inflamados pelo arco tensionado a cada flechacesa disparada nos olhos bem abertos do leitor. lira rica que compõe laços, enrosca-se em nós, acorda cidades e embala casas no colo silencioso de cada poema constelado no “céu de solua”.
Chico fabrica uma poesia atrevida, vigorosa, em que as palavras dançam no ritmo endiabrado de seu resfôlego...mas conhecem o momento de estancar e permanecem no seio encantado da cara literatura.
com a língua rara da poesia, o autor lambe versos que vão aguando os botões floridos das palavras aladas, desabotoando escuridões...e, assim, bebemos a água doce do rio que é o Chico.



A ENERGIA DA HARMONIA

Por Marcelo Ariel**

Poesia e música se entrelaçam e se encontram dentro da energia do silêncio, fonte e destino de toda a música do mundo e força ampliadora dos sentidos de todos os poemas. Chico e Francisco se abraçam dentro dessa energia, talvez a poesia seja uma maneira de converter a energia da memória, matriz de todos os sonhos em música, um tipo de música que é uma fusão de todos os silêncios que atravessam nossas vidas: a interior e a exterior.
Chico e Francisco dialogam dentro desse livro com o silêncio e os silêncios, a música e as músicas, dialogam e se abraçam como um rio abraça o mar, o menino e todo poeta é em essência um menino antigo e o homem, todo músico é no fundo o destino-devir interior do fator humano.
Chico e Francisco aqui se encontram unidos para sempre porque a poesia ao conferir um sentido maior para o silêncio e os silêncios, para a música e as músicas, se confunde com a vida.




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*Beatriz Bajo é poeta, editora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são a face do fogo (SP, 2010), : a palavra é (PR, 2010) e domingos em nós (PR, 2012). Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/).


**Marcelo Ariel é poeta, conselheiro editorial da Rubra Cartoneira, dramaturgo e performer. Seus livros são Me enterrem com a minha Ar-15 (Scherzo-Rajada) (SP, 2007); Tratado dos Anjos Afogados (SP, 2008), O céu no fundo do mar (SP, 2009), Coltrane Blues (SP, 2010), Conversas com Emily Dickinson e outros poemas (RJ, 2010), A morte de Herberto Helder e outros poemas (SP, 2011), A segunda morte de Herberto Helder (PR, 2011) e Cosmogramas (PR, 2012). Mantém o bloguehttp://teatrofantasma.blogspot.com/.


Cosmogramas, de Marcelo Ariel

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


Prefácio do autor

Escrito especialmente para a RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL de Londrina, uma ideia-ressonância que foi materializada por Beatriz e Jesus Bajo. Este livro se divide em duas partes, na primeira chamada Cosmogramas estão os fragmentos de coisas que escrevi dentro do mangue de Cubatão, uma série profundamente inspirada na audição do disco COISAS de Moacir Santos, o que o Mestre Moacir chama de Coisas eu chamo de Cosmogramas, trata-se da mesma energia espiritual da natureza, que ele traduzia como música e eu ambiciosamente traduzo como textos. Não me interessa mais escrever poesia, é um campo infestado de egomaníacos sutis, me identifico profundamente com o que o grande Nicanor Parra quer dizer quando chama a si mesmo de ‘antipoeta’, escrevo uma coisa híbrida entre o poema e a meditação koan do Zen. Me interessa mais o koan do que o poema. Ainda não desenvolvi a elegância suprema de não assinar mais meus textos, a própria ideia de autoria é ridícula como os conceitos de pátria, fronteiras, nomes e etc. Sou como você, um covarde, e não possuo a coragem extraordinária de viver sem um nome. Me tornar eu mesmo uma Coisa, um Cosmograma vivo.

Marcelo Ariel







Não tenho pena do poema, de Reynaldo Bessa

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


a melhor forma de matar o tempo

Por Beatriz Bajo*

do meio da fila indiana formada pelas reticências que visitam as línguas, irrompem versos que rugem. incisivos como uma fera faminta atrás de sua presa, alvoroçando a floresta-linguagem com suas patas-palavras afiadas na jugular do poema.
masculina. aguda. atrevida, a voz não tem pena do poema porque o trata também como impiedoso. e ímpio para ela pode ser o trabalho rascante do artista (mais invisível do que seu olhar oblíquo):

volto (volto?) sob o pó do cansaço, encharcado
de noites e
com os dedos trêmulos ainda tentando segurar
a alça de um ataúde
que há pouco desapareceu no escuro que nunca
morre. (44)

, a vida:

dentro
da velha companheira
caneta bic,
uma dor líquida
cor azul-infância. (11)

ou a fêmea

sinto por você o que o amor ainda desconhece (36)

, numa luta corporal em que cada um perde um pouco de si, sangue derramado sobre o tempo a galope que escoiceia os anos descompassados como uma espada que atravessa o pescoço de uma criança desavisada dos prazos de validade.
Reynaldo Bessa, depois de Outros Barulhos - Poemas e Algarobas Urbanas, reaparece como um serial killer, sujo da graxa da vida, manchado de humanidade, esbaforido por nadar contra a maré dos instantes...munido com verbos apimentados.
não há piedade na poesia besseana porque seu maior inimigo está no espelho e tem a medida exata de sua força, a estatura de todos os seus medos e usa da mesma faca tantas vezes amolada no porão de si - arma branquíssima aos silêncios desafiadores.
o poeta atira versos, atiça a fogueira dos encontros, levanta as saias das meninas que dormem nas suas mulheres, sacode a rua como um moleque deslumbrado com sóis escondidos e assim engatilha um livro de alto calibre:

apenas quero ser arrebatado
como o serial killer que no fundo mata
para, enfim! ser preso (47)

enfim! a presa é o leitor que desenvolve depois da leitura de Não tenho pena do poema a Síndrome de Estocolmo, em que a ameaça transforma-se em prazeroso sequestro do tempo morto para o êxtase renascido por dentro da literatura, espelho do mundo que não morre mais.



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*Beatriz Bajo é poeta, editora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são a face do fogo (SP, 2010), : a palavra é (PR, 2010) e domingos em nós (PR, 2012). Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/).

14/02/2012

O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene



Heidegger deixou os rastros de que “Jamais e em nenhuma língua o pronunciado é o dito.”
(HEIDEGGER, 1969, p. 44).


O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene, trata exatamente desse artifício de amontoar palavras para o estratagema do que mais se aproximaria da verdade: “Só alcançamos as palavras. E as palavras são sombras. A verdade é uma floresta nebulosa, porque a verdade não é a verdade, são palavras. Assim, reinventar o mundo, meu caro poeta, é ressignificar as palavras.” (p.9). O livro passeia pela mata espessa, entre as emboscadas, com a opacidade de quem cose para dentro, interceptando o que é brilhante.
Em súplica de franca natureza, o verso responde que “O mundo inteiro estremece no punho” (p.10) e denuncia o poeta como o responsável pelas mazelas de tudo, haja vista que “O mundo inteiro é culpa de quem imagina/ não de quem vive” (p.11). A trama dessa obra está aquém e abaixo da forma e das fôrmas, no cultivo em perfil denso de nascimentos. O trabalho dO livro das sombras tem a gravidade e gravidez dos signos em inauguração.


Gota
abre-se
silêncio 
interpelado chão 
avança 
furiosa 
penetrando a terra 
vai rasgando o chão [...] 


A vida fervilha em seiva. Uma flor borbulha pétalas. Ouve a respiração ofegante das folhas donde soa em ebulição o silêncio. - Um cardume de mãos Invisíveis se move dia e noite semeando suas sementes. (p.16). Assim Léo arquiteta um livro-casa que abriga as correntes do inconsciente pessoal, das profundidades que reinventam o mundo, onde se encontram as ligações que fazem parte das raízes de tudo o que se é e do que se manifesta. 
Entretanto, seu trajeto é reverso; o caminho é todo árvore em sussurro. Este “é o destino dos homens// (Raízes nos habitam)” (p.18). Mais que a coisa, busca-se sua sombra. No poema “O caminho das árvores”, percebe-se a bela metáfora da mulher-árvore. Toda feminilidade é alcançada em versos de uma sensualidade rica e apurada. Avança lenta e cautelosa sob o peso de seus galhos e seus ramos vestida de flores e sua pele de folhas. Avança pela intimidade dos caminhos. [...]Ela percebe? Percebe! Percebe! É bonita demais pra não perceber insinuações. Para mulheres assim, o mundo é inteiro uma insinuação. (pp.18-9). 
Assim que a trilha à leitura dO livro das sombras vai sendo inventada em plena desarmonia da natureza pa[lavrada]: “a mulher é uma árvore que renasce.// A verdade não é o que existe,/ é o que a gente deixa existir.” (p.19). Na mesma medida, a concepção das novas verdades e dos significados estão em gestação, arvoradas de sentidos a serem inaugurados. Fetos afetados no útero do universo. As mulheres carregam sementes no ventre. Vem das suas certezas a altivez com que me aplaca o juízo. E da alma inquebrantável de verdades a completude com que me atrai os sentidos. Ela traz a segurança das mulheres grávidas das mulheres prenhes da verdade. A verdade o estágio mais alto de toda beleza.(p.19). As raízes de uma árvore não são fáceis de perceber; contudo, são imperativas à sobrevivência da mesma. 
Também essa é a proposta dos pequenos silêncios de Léo Mackellene, em sua obra que prepara um terreno abrigado da palavra. Em “O jardim das horas”, Dois deuses acima de nós disputam o controle de nossos atos o destino e o acaso. (p.29) o que se percebe é a ida ao encontro do silêncio ao desvendamento do que ainda não foi re-velado. O oculto das coisas está nessa sacralidade silenciosa que é a verdade. A des-coberta acontece em sigilo; é na refração que se pode alcançar. 
Ler... É uma árvore que desperta, respira profundamente e se ergue. Deixa que a palavra te leve, que ela é um barco que navega sem leme. (p.32). O silêncio esculpe a palavra; o auge do silêncio é a transcendência do tempo: “Pois entra e senta/ que o mundo é secular e ele pesa./ Diz como quem tem fome./ Pára...” (p.33). Fabulando as significações é que as palavras excursionam “O jardim silenciado”, atuando em processo metafísico, com a ciência de serem reflexo. Eu sou o último galho o que sobrou... e aqui estou sob a sombra dessas árvores e dessas plantas entre as dobras dessas páginas brancas, vivendo secretamente em ti. (p.46). Aqui se dá o esfacelamento do ser, enfraquecido de saber-se perecível. Vestígio humilde de certificar-se abaixo da sombra das palavras que não alcançam a verdade, mas, incansavelmente, procuram-na: “Aqui,/ um segundo/ é a eternidade doendo.” (p.47). 
O poema que encerra O livro das sombras é “O quintal dos dias”, o terreno atrás da casa-livro, em que se operam as oportunidades da linguagem. Léo novamente transubstancia o indivíduo, agora fundindo à árvore a sabedoria humana. Gigantes sábios e benevolentes retiraram-se dos campos - onde havia gente - E embrenharam-se na floresta, Transformados também em árvores. (p.50). Descarnando-se, ou seja, fugindo da solidez do que já está posto, a obra sugere uma reflexão, uma compreensão que se dá além das palavras, em sua virtualidade: “O fruto é uma revolução silenciosa.” (p.50). 
Léo Mackellene empenhou-se com uma destreza assombrosa sobre o que se passa através dO livro das sombras, em confecção íntima e precisa de uma textura sobre a matriz da palavra – o silêncio –, alcançando o que se pretendeu ou se pressentiu construir no enovelado e nodoso versejar grávido de sentidos.



referência:
MACKELLENE, Léo. O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios. Fortaleza: Mangues & Letras, 2006.




sobre o autor: 
Léo Mackellene nasceu em Fortaleza no Marco Zero dos anos 80. Tocou em bandas de rock. Publicou poemas e contos. Saiu de casa aos 11 anos. Morou em cidades diferentes. Amou, se embriagou, chorou. Participou do movimento estudantil e hoje vive como mestre em literatura (UnB) e leciona na Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, na terra de Domingos Olímpio, Sobral. Mantém o blogue http://olivrodosmaispequenossilencios.blogspot.com/


30/10/2011

Cantáteis, de Chico César

Cantáteis - cantos elegíacos de amozade
: de entontecer
a capa é escadalosamente linda, com xilogravuras de João Sánchez (editor e impressor do Estúdio Baren) que dão o tom da literatura de cordel no mais alto estilo e vigor. o livro é surpreendente do início ao fim. o eu-lírico apresenta-se cordialmente, vindo com a primitividade poética característica das forças literária e mitológica que edificam a história humana e como num jogo mesmo de sedução, ele surge:

1
seu poeta preferido
bem antes de ser ferido
já era ferido antes
não visitou as bacantes
as nereidas e as ninfas
quis beber de sua linfa
esperou e não morreu
esse poeta sou eu
de lira desgovernada
deliro musa amada
órfão bisneto de orfeu

as estrofes são de 11 versos emparelhados e seguidos da intercalação ao final - a a b b c c d d e e d - como fósforos que vão se acendendo um no outro, para culminar na fogueira deliciosa da poesia dançarina, com pés ligeiros deslizados entre métricas rimas e neologismos de Chico César, que além de ser um "cantautor" brasileiro de repercussão internacional com hábil talento, sabe trazer a música pra dentro das páginas com extremo polimento, esmerilhando ideias, sensações, até o esmerado panorama de imagens ritmadas e encharcadas de significados.
28
nem parnaso nem concreto
o amor analfabeto
não lê poemas de amor
tanto faz lápis de cor
ou computador que escreva
a linguagem mais longeva
que o amor reconhece
é o próprio amor, sua prece
é a pane do motor
é o silêncio do tambor
é a bomba na quermesse

numa despedida dentro da manhã que andava de carro até o aeroporto, Chico me contava de um livro que havia escrito em 1993 para conquistar uma mulher pela qual fora apaixonado. ele o fez manuscrito num caderninho (da primeira a última folha) e entregou-lhe como presente de natal.
achei tão comovente a estratégia e fiquei curiosa pra lê-lo. não conhecia detalhes do mesmo, a não ser uns versos recitados por ele que ficaram guardados com a emoção do show em que nos conhecemos, quando entreguei ao Chico meus livros.
nesta época de sua vida, CC morava em sampa. talvez isso tenha contribuído para que sua obra se tornasse uma rapsódia, porque é uma canção costurada de relatos e retratos da cidade tão exótica e camaleônica, engravidada de cores e gentes lambendo a mesma língua. Chico e seu eu-lírico de Cantáteis passeiam pelas ruas macunaímas seguindo o molejo da vida anti-heróica paulistana, mas com o mais nobre dos argumentos: o amor.

55
sei que no tatuapé
ninguém lê lou salomé
nitzsche rilke nem paul rée
ninguém não: lá tem você
e deve ter mais uns poucos
toda terra tem seus loucos
profetas visionários
tem quem ganha altos salários
e escondido come merda
e o lindo bebê que herda
sangue podre funcionário

e aí, o amor que Chico sentia no peito não coube mais, nem serviu a apenas uma mulher, seu sentimento transbordou pela cidade; assim como ela faz insistentemente com a garoa que alcança, mesmo que mansamente, todos os espaços, umedecendo praças, calçadas, os filetes descobertos dos comércios. também o poeta se infiltra no sentimento do povo daquele tempo e lugar, na angústia daquela gente sendo esmagada pelo concreto das rotinas e precisando tanto de serem salvas pela poesia insandecida dos peitos abertos aos encontros afetivos e efetivos.

78
morte e vida severina
pro filho de etelvina
circo césar circunspecto
claríssima lispector
luz na alma das mulheres
sou cantor não sou alferes
confidente esquartejado
mas na praça do mercado
minha língua tagarela
canta ainda o nome dela
doce morango mofado

Chico é um poeta. nunca tive dúvida. mas seu livro ratifica o mel da linguagem aliado a um requinte de passeios literários, folclóricos, populares. não há ingenuidade nem na forma nem no conteúdo de seus versos. tudo é poesia comovendo as páginas, como vida nascendo das palavras atrevendo-se aos desdobramentos imagéticos.
Obviamente, o poeta conquistou o amor da musa evocada em todo o livro. o da mulher, o da cidade e o dos leitores que se dispuseram a serem seguidos por sua mão enfeitiçada de poesia. se colocar a mão na boca, aí espanta pássaros da alma, enroscados nas cordas vocais já tão caras a tantos admiradores de seu talento musical.
REFERÊNCIA:
CÉSAR, Chico. Cantáteis: cantos elegíacos de amozade. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

DADOS DO AUTOR: Chico César nasceu em Catolé do Rocha, na Paraíba, em 1964. Aos 16 anos foi para João Pessoa, onde se formou em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, enquanto participava do grupo Jaguaribe Carne, que fazia poesia de vanguarda. Aos 21, mudou-se para São Paulo. Trabalhando como jornalista e revisor de textos, aperfeiçoou-se no violão, multiplicou as composições e formou um público. Hoje tem uma carreira artística de repercussão internacional. A maioria de suas canções são poesias de alto poder de encanto linguístico.
Em 1991, foi convidado para fazer uma turnê pela Alemanha e passou a dedicar-se somente à música. Formou a banda Cuscuz Clã e passou a apresentar-se na casa noturna paulistana Blen Blen Club. Em 1995 lançou seu primeiro disco Aos Vivos e seu primeiro livro Cantáteis. Tomou posse na presidência da Fundação Cultural de João Pessoa (FUNJOPE) e maio de 2009. Desde janeiro de 2010 é Secretário de Cultura do Estado da Paraíba.
FOTO: Ana Oliveira

19/03/2011

Maria Bethânia canta "O doce mistério da vida"


A gritaria contra o blog de Maria Bethânia é uma mistura de ignorância, preconceito e mau-caratismo.

Ignorância, porque parte de idéia absolutamente falsa de que os produtores do blog – que pretende exercer a tarefa vital de divulgar a poesia – recebeu ou vai receber este dinheiro do governo. Juro que tenho saudade do tempo em que se lia fato ou ficção, hoje o que mais há são equívocos e mentiras, que não são um nem outro. O fato é que a única coisa que os produtores do blog receberam do governo foi a autorização para se humilhar, pedindo a empresários, de porta em porta, que considerem a possibilidade de, ao invés de entregar parte de seus impostos ao governo, patrocinar, com a vantajosa exposição de suas marcas, um blog de uma extraordinária artista brasileira, blog este que tem como objetivo divulgar a poesia, não há tarefa mais nobre. Nada garante que os produtores do blog terão sucesso em sua jornada de mendicância entre a elite empresarial brasileira, frequentemente iletrada. O mais provável é que consigam apenas uma parte desta verba e tenham que redimensionar o projeto, o que seria uma pena. Na minha opinião, o governo brasileiro deveria tirar do seu caixa o dinheiro (1,3 milhões de reais, uma ninharia perto da roubalheira do Detran gaúcho, dos pedágios paulistas, da máfia do governo Roriz/Arruda no DF, etc, etc...) e entregar para a Maria Bethânia, junto com um buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão.

Preconceito contra a internet, porque – como muito bem lembrou o Andrucha, na Folha: "Se fosse documentário ou filme para ser visto por cinco mil pessoas no cinema, ninguém estaria reclamando. Parece que internet não é um meio válido. Lá [no blog], os vídeos vão ser vistos por milhões, e de graça”. A distinção que alguns ainda fazem entre os meios cinema, televisão e internet seria engraçada se não fosse um empecilho ao desenvolvimento do país. Preconceito também contra os nordestinos, nas críticas sobram piadas contra os baianos, quase todas vindas do mesmo gueto branco direitista no enclave paulista, enfim, os eleitores de Kassab e Serra, gente que lê e cita a revista Veja e beija imagens de santo para ganhar voto e acha que poesia é "uma besteira".

Mau-caratismo, porque a “polêmica” criada pela notinha da Mônica Bergamo assanha, para variar, o furor udenista que almeja – e obtém – manchetes moralizadoras. “Eu sou melhor que você”, gritam o lobão e também os três porquinhos, unidos em sua santa cruzada. Um publicitário engraçadinho – mais um – fez um blog que lhe garantiu seus 15 minutos de fama, espinafrando a Bethânia. "Criei o blog porque não recebi uma bolada do MinC e achei injusto", comenta o pândego. Pergunta: era para ser um piada? Ele pediu algum dinheiro ao MinC? Em caso afirmativo, apresentou algum projeto? Qual seria? Com que objetivo? As críticas e piadinhas sobre o caso me fazem lembrar de uma das considerações de Hamlet, matutando se vale a luta ou é melhor acabar com a agonia: “o achincalhe que o mérito paciente recebe dos inúteis”. (Na tradução do Millôr.)

Chega a ser constrangedor ter que relembrar aos mais jovens que Maria Bethânia é uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos. Seus incontáveis discos e shows são um valioso patrimônio nacional, seu trabalho de divulgação de dezenas de compositores brasileiros ao longo de sua carreira são uma herança que ela deixa ao Brasil. Bem vale alguns barris do pré-sal. Talvez tenham sido os show de Bethânia, lá nos anos 70, meus primeiros contatos com a poesia de Fernando Pessoa e também com a prosa-poética de Clarice Lispector. Vai aqui, a ela, meu muito obrigado.

FONTE: http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/gritaria-contra-o-blog-de-maria-beth%C3%A2nia-%C3%A9-uma-mistura-de-ignor%C3%A2ncia-preconceit

dica de Ana Rüsche: um blogue que reúne poetas, atores e videomakershttp://fubap.org/365poemas/

26/02/2011

Sarau Sereia Ca(n)tadora

O selo de livros artesanais Sereia Ca(n)tadora promoveu nesta sexta-feira (25), às 20 horas no Sesc Santos, o lançamento de três novos títulos de poesia: Olho por Olho, de Regina Alonso, A morte de Herberto Helder, de Marcelo Ariel, eHI-KRETOS, de Paulo de Toledo. É o Sarau Sereia Ca(n)tadora, que contará também com a participação do escritor Flávio Viegas Amoreira, próximo autor a ser publicado artesanalmente, e do grupo experimental Percutindo Mundos. Amoreira e Ariel são dois dos autores deste blog.
Os livros são feitos de forma artesanal, com capas pintadas uma a uma em papelão reciclado. O selo, ideia de Ademir Demarchi, editor da Revista Babel de poesia, conta com a parceria do Instituto Camará de São Vicente - ponto de cultura ligado à assistência à criança e ao adolescente.
Criado entre Santos e São Vicente, o selo Sereia Ca(n)tadora publica livros com papel reciclado e capas de papelão catado nas ruas, trazendo para a Baixada Santista uma experiência editorial que tem se alastrado por toda a América Latina, onde mais de 15 editoras "cartoneras" têm publicado uma série de poetas e prosadores em todo o continente.
O primeiro título da Sereia Ca(n)tadora, Voo de identidade, foi publicado em novembro de 2010. É uma edição bilíngue (espanhol/português) de Vuelo de identidad, do poema peruano Óscar Limache, até então inédito em português, que esteve em Santos para o lançamento.
Uma das capas de Voo de Identidade, de Óscar Limache

Serviço:
Sarau Sereia Ca(n)tadora
SESC Santos

24/02/2011

SILVAREDO É A COLHEITA DE WILMAR SILVA. OU NINHO OU ROSÁRIO OU ESPINHO?

Silvaredo é a colheita de Wilmar Silva. ou ninho ou rosário ou espinho? é de Silva e de Minas o que pousa no caule-livro do que se planta nos pés dos olhos arrebatados por arranjos de pássaros e flores, solo de colibri, pardal de rapina, anu e salmos verdes, seus cinco livros dentro do Silva, a coleção deste: SILVAREDO.

Quando o vento sacode os versos, corrompe as palavras: “eu-curió, exangue, por t, despetalo-me” (36). E o pássaro bule com a pássara por meio de vocábulos onomatopaicos - "onde eu-rouxinol, chilreio agudos por ti"(46) - que verbalizam a ânsia do eu-lírico, assobiando aos interlocutores – haja vista a frequência de vocativos: “floro, palmas eu-estuário, planície/ de sapotis, onde te canto, ó patativa /” (23).

As palavras ganham cor em seu atrevimento de personificar aves e flores e inverter suas formas e cortá-las em arranjos de pássaros e flores. No entanto, o corte é interno e o poema é lamento denso, profundo e coalhado de antíteses e dores em tons terrosos. Wilmar é rocha que se arrebenta quando a água vai cair e vira pássaro e voa com as asas dos versos em eclipse, em elipse, todavia resplandecentes, como em " Arranjo de zabelê nenúfar, dia 13":


eu, vertical, crispo nuvens de juncos

e zabelê, percebo, eu solcris em eclipse

clave e vermelho, poente – fogo e archote

em clima de erosão, te entorpece,

ó alado arcanjo que eu chamo de ariel,

antes todo vale em aclive pelo declive

agora, aqui – sobre a origem da água,

desvio por igual, retinas em debrum

íris afluentes – neve, aragem, brisa leve

que rasga nenúfar / oceano e sertão (29)


Em solo de colobri, há fabricação de ninhos e volúpias. Sempre a escolha é por palavras enérgicas, remetendo à virilidade masculina e à força da natureza: “sob a neblina da primavera/ rompo [ grafo pela sesmaria, no cume e montanho/ crisântemos acesos ao sol/ na clave do olhar, melnéctar” (57). O eu-lírico não metaforiza os elementos naturais, mas estes se manifestam naquele, como em “montanho”. Nomes são verbos através dos quais o poeta se transubstancia.

Em pardal de rapina, novamente aparece a sensualidade e a caça pela beleza – feminina –, já que há poemas cujos títulos são referências a deusas como Afrodite, Vênus, Tétis, Dríade, além de Noiva e de Eros, deus do grego amor (cupido): “varou em mim tua papoula/ de ópio e ouro nos lábios/ erotizou-me tua pássara/ antes fugidia e fugaz” (87).

Em outro momento, Wilmar retorna às raízes, às corrosões: “onde habita a insana/ a seiva e a via-láctea/ sou punhal e púpura” (99), às sedes e às esfomeadas aspirações poéticas, ainda que inconsoláveis como em lenitivo “mesmo que eu faça um poema/árido e torrencial é o sertão” (101) ou em o pão: “ouço teu ir dentro da noite/ e fico preso em mim” (114). No entanto, embandeira, alguma fagulha de esperança lambe suas letras: “longe de mim e longe de ti/ aves ganem no inverno da noite/ crianças ilhadas à lua/ haverão de molhar as almas” (117).

Em “anu”, a poética wilmariana configura o céu das palavras – estas brancas dentro de um quadrado preto, distinguindo-se da outra brancura das páginas –, fabrica-as, remodela-as, constelando significados: “poçudespelhosáslisárguacor” (127), desdobrando o sistema linguístico como se desdobra o firmamento...basta prestar atenção e as imagens surgem no céu, feito palavras...assim como a abertura que o poeta comete em seu livro curiosamente semeado de estrelas visuais e sonoras.

Também o eu-lírico é um chacal, animal carnívoro de hábitos noturnos, caçador que se alimenta de carcaças concretistas, antropofágico poeta rasgando verbos dentro da galáxia semântica que fulgura assim assim:


triçaentrioandorinhasanu

antespeleveredaeupaulavra

viropássarosoumesmoanu

perdíceonocoraçãodeminas

essepassarinhosóldscamiar

riomarnointeriordasgraiz (156)


Em “salmos verdes” há brancos à esquerda e versos à direita. Silêncio e expressão. Um antes do outro...como tem de ser. E fusões e entroncamentos nas repetições de palavras roda-vivas e de conectivos sem tempo, como num transe, seções em ramos...remos? rezas? Ruídos? Há sempre lágrimas em cada prece-poema: “mina d’água para roda d’água/ fazer flor d’água” (169) ou:

o tigre abatido na caçada de espingarda e curupira

a pele do tigre exposta para mirar e farejar

e passar a pele das palmas e puxar a pele das plantas

e tocar de leve e comprar e levar para expor no mármore da casa

e depois e sempre pisar sem pena e nem dó

pisar com as plantas como se pisa na terra que também tem alma

e pode chorar e está chorando e chorando torrencialmente

e mais que a chuva e muito mais que a tempestade

essa tempestade toda

só de poemas que eu tenho lá na entranha do meu sangue (195)

O poeta é pujante com a árvore significativa de sua sagrada escritura porque recorta angústias nas melodias de papel: “ah dói mesmo é pensar que sou humano// fosse primitivo meu olho de farol/ e meu ouvido cata-ventasse” (165), roendo os enfeites apalavrados na trama mais descosturada de sua poética: “essa América esse Brasil esse triângulo/ rio paranaíba e acordasse o mundo de estilhaço” (197). Tudo é roto, corroído e arde, pode ser estarrecedor, mas paradoxalmente é de uma delicadeza ímpar...aqui, Wilmar é verde, seiva radicada no poeta, original como é a poesia, banhada com a sacralidade de cada verso alimentado deste sangue tão dele que é nosso.

O livro nos ramos do corpo, outra forma de prová-lo:























Referência:
SILVA, Wilmar. Silvaredo. Minas Gerais: Anome Livros, 2010.


Sobre o autor:
WILMAR SILVA, Rio Paranaíba, Minas Gerais, Brasil, 30 de abril de 1965. Livros: Çeiva (Brasil, 1997),Arranjos de Pássaros e Flores, (Brasil, 2002), Cachaprego (Brasil, 2004), Anu (Brasil, 2008), Estilhaços no Lago de Púrpura/ Astillas en el Lago Púrpura (Brasil/ República Dominicana, 2009), Estilhaços no Lago de Púrpura/ Lágrimas en el Lago de Púrpura (Argentina, 2009), Yguarani(Portugal, 2009), Silvaredo (Brasil, 2010). Performances: Afrorimbaudelia, Subida ao Paraíso, O sétimo Corpo, Ee Tu Mao, Eusmaranhados. Videopoema no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, Brasil. Participa das antologias: Antologia da Nova Poesia Brasileira (Brasil), A Poesia Mineira no Século XX (Brasil), Oiro de Minas a nova poesia das Gerais (Portugal), Máscaras de Orfeo (República Dominicana). Organizou as antologias: O achamento de Portugal (Anome Livros, Consulado Portugal Belo Horizonte, Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto Camões), Terças Poéticas: jardins internos (Secretaria Estado Cultura MG, Fundação Clóvis Salgado, Suplemento Literário). Curador do projeto de poesia Terças Poéticas, Secretaria Estado Cultura, MG. Trabalha no projeto de pesquisa de poesiaPortuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética, 1º. ensaio em livro-dvd com 101 (cento e um) poetas de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Brasil (Minas Gerais), publicado em junlho de 2009. Faz o programa de literatura Tropofonia, um laboratório de sons e palavras, pela rádio educativa UFMG (104,5). Blogue: www.cachaprego.blogspot.com.