segunda-feira, 20 de abril de 2009

3 POEMAS DE PRISCILA FIGUEIREDO:




1.




Irmãzinha





Pensei muito no que me disse


lembra? falávamos sobre a minha falta de forma


de prudência


Com metáforas antigas


você afirmou serenamente:


o mundo lá fora é mesmo uma


floresta


se não nos protegemos


se não nos concentramos


ele nos traga


Então eu repliquei


querendo aprender a me fechar:


de que sinal eu posso me valer


já que o da cruz é para mim ineficaz?


Nessa altura pairava em minha mente


uma desagradável contingência:


era São Paulo, 2004


e nada era certo


Temi que essa impertinente


viesse bicar


a confortante cúpula que me envolvia


e fortificava



Sem dúvida, pensei


São Paulo é bem uma floresta


E esta nossa luta


Uma coisa primitiva --


Que mal há em nos precaver


e buscar um justo auxílio


nas fábulas eternais?


Não foi isto o que disse


um fino homem da Academia


leitor de Winnicott e Bion –


você é um animalzinho sem pele


e o mundo de que fala é mesmo


uma floresta – ?


Está claro que ele o faz


porque os conceitos, como a morte


são das coisas mais frias


Animalzinho, mundo e floresta –


é uma história que entendo


e em que me agasalho


Assim foi para mim


nossa conversa, irmãzinha


E neste ponto acrescento


embora receie


espicaçar a reflexão


com realidade mais turva –


a da televisão:


o argumento da Bispa ardente


Deus é uma coisa quentinha


não é mesmo muito bom?



Não malqueira minha ironia –


ela tem parte com o mundo


suas garrinhas são como perguntas:


oh mares, oh rochedos


não vistes minha irmãzinha?




2.










Tão completos





tão completos estivemos um dia


talvez nos recomponha o clima


o vento que alisa


somos um a menos


tão completos estivemos um dia


somos um a menos e o vento que alisa




3.












Sinai





Ele jamais foi conivente;


apenas não via.


Faltava-lhe o sentimento moral.


Tarde as tábuas da lei lhe caíram ante os olhos;


em seu momento mosaico


pôde aquilatar com justeza


seu passado, seu obscurecimento.


Foi quando, ao clarão súbito da verdade antiga,


desviou o semblante cúmplice


como um diabo que se confundisse.



Ele que se divertira tanto e uma tradição ruim perpetuara


com um credo arcaico, de crimes absconsos,


agora compreendia, no fundo de sua alma atribulada,


quanto fizera pelo conluio universal, a trama de ferro


na qual viera parar como um inseto enceguecido.


Jamais se tinha perguntado até então


sobre o destino do trem em que entrara.


Os trilhos do trem! Sim, há os trilhos!, espantava-se.



Por muito que chorasse e sua vida inteira reprovasse,


a cena toda ia no interior do que ele se punha a esquadrinhar,


e aquele maquinismo tão orgânico, cuja pulsação lhe era familiar,


aquele maquinismo --- ah era sua alma mesmo e seu passado!


Comunicava-lhe a matéria tudo quanto o rodeava. Em tudo vislumbrava


uma fisionomia mais íntima,


e isso no sagrado instante em que gozava


de perspectiva distanciada!



A mesma luz que a natureza de sua condição esclarecia --


via-se prisioneiro obscuro, e não, como pensara, alegre conviva –


pouco a pouco o desarmava,


por fim lhe derrubando as animadas mãos que um breve instante


impelira a desenhar muitos, muitos! protestos no ar --


maquinações de um mundo mais sensato.



O ver claro não é motivo para afrouxar, antes para agravar


o ajuizamento que faremos –ó nós,


onde quer que estejamos!


Sabemos bem onde estamos,


também tivemos o momento mosaico.


Vemos claro, claro, claro --isso nos serviu de alguma coisa.



Ajuizemos, pois, com justiça o nosso colega:


Ele é conivente?


Ele continua no trem.


Não há como sair do trem!


Mas ele continua no trem.


Sim, ele é conivente.


Então ele se tornou conivente após receber a lei para a sua glória?


Sim, porque ele insiste no que descobriu ser insensato.


Mas tudo lhe parecia tão íntimo!


De primeiro, tudo lhe parecera estranho.


Ele também não sabe para onde vai o trem.


É muito ruim um homem não saber essas coisas.


Então ele insiste em algo que sabe ser errado?


Ele insiste porque é isso ou morrer. A propósito: por que não morremos?


Por que não morremos?


Já discutimos isso. Decidimos...


Bem, ele se tornou conivente depois da revelação.


Como nós.


Como nós.


Ver claro deve ser de alguma ajuda.


Também acredito. Porque a qualquer hora...


A baleia vai abrir a boca.


E saberemos que ela abriu a boca.


Saber essas coisas não nos livrou de um julgamento mais duro.


Não há razão para ser diferente com ele.






Nota: Poemas do livro inédito Mateus de Priscila Figueiredo.




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