domingo, 29 de março de 2009

A insustentável leveza do ser

A insustentável leveza do ser

Beatriz Bajo (16/12/2007)

Se um romance (um poema, um filme) é um conteúdo colocado numa forma, ele é apenas uma mensagem ideológica disfarçada: seu caráter estético desmorona. A leitura ideológica de um romance (e é ela que nos é proposta sem cessar e em toda parte) é tão simplificadora, embrutecedora e rebaixadora quanto a redução ideológica da própria realidade. (Milan Kundera).


Em alternâncias de gravitações e acelerações de um corpo sobre o outro, Tomas, Teresa, Sabina e Franz transitam por forças e posições oscilantes. Ora, Tomas é enredado por situações entre peso e leveza, o amor e o desejo de estar só, impulsos que agem sobre ele concomitantemente. Assim como a trama de Tereza costura-se com as linhas tênues entre corpo e alma. Ora, a narrativa é atraída pela fragilidade da representação lingüística, flagrada por meio da mudança de foco entre Sabina e Franz.

O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato? (p.9)

“A insustentável leveza do ser” reserva os dois capítulos iniciais à introdução filosófica que permeará todo o livro. Só temos contato com as personagens a partir do terceiro capítulo. Bem como escreve Kundera, eterno retorno (Ewige Wiederkunft, em alemão) é um conceito filosófico criado por Friedrich Nietzsche em que há repetição por todo o sempre dos acontecimentos que serão reproduzidos inexoravelmente.
No entanto, a teoria não se resume a isso, haja vista que a noção de tempo, segundo Nietzsche não é cíclica, mas complementar. Assim sendo, não há oposições, mas multiplicidades dentro de uma mesma realidade. Há complementaridades que vão se alternando pela eternidade. Daí o retorno.
Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. (p.11)

Outro conceito filosófico que aparece no livro é o amor fati (amor ao destino) e suas relações. Nietzsche preconiza o amor ao inevitável uma receita à nobreza humana: "Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo". Essa “afeição” ao fado seria a fortaleza através da qual o homem torna-se impassível ao sofrimento.
Assim, Kundera apresenta Tomas (um atraente e bem-sucedido médico), que hesita entre o peso de Tereza ter-lhe entregue sua vida e o medo do envolvimento, seu filho e os embaraços amorosos e a leveza, que inicialmente se apresenta como o desejo de ficar só e manter casos esparsos, amizades eróticas. A maior delas era com Sabina, que será apresentada mais à frente. Tomas e Tereza casam-se e adquirem um cachorro: "Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora." (p.17)
Tomas sente compaixão por Tereza, sentimento que se distancia do amor, por significar sofrimento, piedade. Tereza sente muito ciúme pela infidelidade do marido e sai de casa. Inicialmente, Tomas reage como se a separação representasse a leveza, no entanto, depois de alguns dias, a sensação angustia-lhe: “No sábado e no domingo Tomas tinha sentido a doce leveza do ser chegar a ele, vinda da profundeza do futuro. Na segunda-feira, sentiu-se aniquilado por um peso que jamais conhecera.” (p.37)
Entre essas considerações sobre leveza e peso, sustentadas por Parmênides — filósofo pré-socrático que se debruçava sobre as dualidades ontológicas do Ser, em que o peso é uma falta de leveza — aparecem os questionamentos existenciais que dizem respeito a comprometimento e liberdade e uma ressalva interessante: “Ao contrário de Parmênides, Beethoven considerava o peso como algo positivo. [...] o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.” (p.38-9)
A metáfora representada por Tereza está nas questões alma e corpo, personagem que encarna as inquietações acerca da fronteira tênue entre o espírito e a matéria: “O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.” (p.46)
A jovem atendente de um bar chulo e mal freqüentado nasceu em um ambiente hostil no qual sua mãe era a principal responsável, por ser uma mulher frustrada. Toda referência que Tereza teve de maternidade foi maculada pela devassidão, através da qual a menina se acuava contra o que flagrava de mais miserável entre os homens, a vulgarização do corpo e seu mau uso. Em repulsa a tudo o que ocorre na sua vida, Tereza acreditou ser um livro (“Ana Karenina”, de Tostoi, do qual o enredo se passa na Rússia — século XIX — e discursa sobre esta sociedade e seus arquétipos ideológicos que levam aos dramas existenciais, ressaltando temas como adultério e destino) na mão de Tomas o indício de fuga dessa corrupção humana:

...o livro era o sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta. Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal; sobretudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evasão imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço. Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi do século passado. Eles a distinguiam dos outros. (p.53)
Assim, foi catalogando outras indicações que lhe faziam sentido para jogar sua vida inteira ao desconhecido, o qual servira entre os sórdidos que freqüentavam o bar em que trabalhava: “O acaso tem suas mágicas, a necessidade não. Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante, como os passarinhos sobre os ombros de São Francisco de Assis.” (p.55)
A história que inicialmente estava sendo contada por Tomas ganha nova perspectiva com Tereza. Depois do casamento, a esposa passa a reencontrar-se com o mesmo dilema enfrentado na época em que vivia com a família. Por conta da infidelidade do marido, Tereza mergulha num ciúme que a impele à imersão de sonhos/pesadelos através dos quais, em alguma medida, ela livra-se da opressão de sua alma já que se afasta do corpo.
Nesses sonhos, a esposa intui que seu marido a iguala às outras mulheres. Tereza e todas as outras fêmeas possuem corpos idênticos. Essas visões quiméricas vêm para ratificar o que sente a moça dentro dessa relação: um amor infeliz. Assim, fadada estará como a mãe e no que concerne à sua sensação de não caber neste espaço, de não ser única.
Nesse contexto é que Tereza inicia um mecanismo de desmoronamento, passando a sofrer com as vertigens como um reflexo das quedas em busca de que alguém (Tomas, no caso) a levante:

O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados. (p.65)

Platão, em sua filosofia, pensa sobre alma e corpo como contrapontos em que à alma cabe o mundo inteligível e ao corpo, o sensível. Esse sentido remonta que a sabedoria vem daquela que está aprisionada pelo material. No entanto, por conta disso, o corpo contrai alguma identidade, notadamente, no que diz respeito ao contexto de crise subjetiva que conjetura inclusive a corporeidade do indivíduo.
Tereza discute exatamente esses conceitos, a dificuldade de identificar-se ao mesmo tempo em que seu corpo adquire as experiências advindas de uma posição específica sócio-cultural e, assim, vai sendo construído. Juntamente com os “cenários” pintados por Sabina, essas oposições trocam de lugar e se amoldam aos discursos dessa obra: “Na frente ficava a mentira inteligível, por trás a verdade incompreensível.” (p.69)
Sabina é uma das amigas com quem Tomas mantém relações eróticas, uma pintora formada na faculdade de Belas-Artes. A artista está sempre fabricando em um mundo, o duplo. Vivendo de sua fenda, nutrindo a informalidade acordada com Tomas em seu caso, sem que isso demonstre qualquer tipo de insegurança a ambos.
O oposto passa-se em relação a Franz, um homem casado e infiel. Sua fragilidade é a insegurança. Franz entregara-se à tara por Sabina, mas vive receoso e sente-se culpado pela traição: “Certamente teria preferido dormir só, mas o leito comum permanecia o símbolo do casamento, e os símbolos, sabemos, são intocáveis.” (p.89)
Nesse paradoxo de valores encontram-se as incompreensões entre os amantes que não conseguem atingir a mesma intimidade que Sabina possuía com Tomas, com quem mantinha jogos eróticos, utilizando o chapéu-coco como um objeto que simbolizava sua originalidade (aqui Kundera cita Heráclito sobre a inovação do instante – “Ninguém coloca os pés no rio mais de uma vez. É sempre um novo rio.”):

O chapéu-coco era o leito de um rio e Sabina nele via, a cada vez, um novo rio correndo, um rio semântico: o mesmo objeto suscitava a cada vez um outro significado, mas esse significado repercutia (como num eco, num cortejo de ecos) todos os significados anteriores. O que estava sendo vivido ressoava com uma harmonia vez mais rica. (p.94)

Essa dissonância entre os dois — Sabina e Franz — acaba por levá-los a uma distância quando Franz separa-se para assumir o caso com a amante. Longe de querer algum vínculo, Sabina alimenta-se da sedução da vida e, para ela, essa sedução advinha da traição:
A traição. Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo do que partir para o desconhecido. (p.97)

A artista estava sempre às voltas com o seu drama de leveza: “Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser." (p.143). Reprimida que estivera pelo vazio com que sentiu até receber a carta do filho de Tomas e atentou para o peso em meio a pedras e ossos que atravancaram a compreensão entre ela e Franz.
Uma outra admirável imagem que Kundera imprime em sua obra é a das fotografias retiradas por Tereza das mulheres munidas com guarda-chuvas como que simulando o dia da invasão soviética na Tchecoslováquia, em que moças carregavam a bandeira nacional. Esse é um dos muitos fragmentos em que o autor menciona a história que está sendo contada juntamente com as de Tomas, Tereza, Sabina e Franz, a invasão russa à Tchecoslováquia e a atmosfera da crise política flagrada na cidade de Praga e Viena, lá pelo ano de 1968, apesar de “A insustentável leveza do ser” ser publicado em 1984 (romance adaptado para o cinema por Philip Kaufman com o título The Unbearable Lightness of Being).
Voltando aos sonhos de Tereza, o Monte Petrin causa grande impacto porque distorce os limites entre a realidade e a imaginação. Além disso, nesses momentos, torna-se evidente o papel cerceador dos soldados (Primavera de Praga) em justaposição ao sentimento da personagem e em analogia ao seu papel na relação com Tomas.
Quando essa sensação se apresenta incontrolável, Tereza encontra-se com um gentil cavalheiro que a defende em uma das muitas situações embaraçosas que ela passa no bar em que trabalha e, a partir daí, consegue afinar-se com a descoberta da unicidade de seu corpo:

Depois, ele lhe tirou a calcinha; agora estava completamente nua. A alma via o corpo nu entre os braços do desconhecido, e esse espetáculo lhe parecia inacreditável, era como se estivesse vendo de perto o planeta Marte. Iluminado pelo inverossímil, pela primeira vez seu corpo deixava de ser banal; pela primeira vez ela o olhava com uma espécie de encantamento; tudo que o fazia singular e o tornava único e inimitável estava projetado em primeiro plano. (pp.157-8)

Em um livro que apresenta a cada seção, a história sendo contada por um prisma diferente em que as mesmas palavras têm significados distintos para cada pessoa que vive dramas dessemelhantes uma das outras e, em alguns casos, complementares ou paralelos, Tomas, nesse episódio, retorna ao primeiro encontro com Tereza e faz uma referência a Sófocles e Édipo, comparando-a com uma criança abandonada. Bem como, remete esta imagem a dos comunistas como que não conseguem ver a traição no que concerne à pátria (ignorância).
Kundera cita o antagonismo entre a merda e Deus: “Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus — e então Deus tem intestinos —, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.” (p.248). Também, há incompatibilidade quanto ao sexo e a excitação, o que se encaminha a uma convenção de mascaramento a tudo o que não deve ser mostrado, ou seja, finge-se que não existe a merda: “Segue-se que o acordo categórico com o ser tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético se chama kitsch.” (p.250)
Alude-se, então, a uma ideologia que simula o apagamento de tudo o que não se pode admitir visualmente. Conseqüentemente, o que se mostra são planejamentos de aparente fraternidade entre os indivíduos, estratégias concebidas, sobretudo entre os políticos (comunismo). O que entra em embate com essa “ditadura do coração” é combatido entre os discursos: individualismo, ceticismo e ironia (o que não significa que a prática seja diferente). Essa seria a temática de “A Grande Marcha” para frente, que se utiliza de muitas imagens e vocabulário apurado.
Assim, Kundera novamente fabula o que seria “A Grande Marcha” e esclarece os medos de suas personagens: Tereza teme a igualdade de corpos: “O sonho de Tereza revela a verdadeira função do kitsch: o kitsch é um biombo que dissimula a morte” (p.256), enquanto Sabina abomina o kitsch soviético: “É assim que Sabina explicou a Tereza o significado de seus quadros: na frente, a mentira inteligível; por detrás, a verdade imcompreensível.” (Idem)
Uma outra questão bastante interessante é quando Kundera confere a última parte de seu livro para contar a trajetória de Karenin (o cão que foi presente de Tomas a Tereza e recebeu o nome em homenagem ao livro que esta estava lendo de Tostoi) e registra a diferença entre tempos. O tempo do homem é linear e o do cão, por exemplo, é circular.
Segundo o autor, o aspecto cíclico do tempo, afina-se à felicidade. Assim, a eleição entre peso ou leveza, entre obrigações e responsabilidades ou liberdade é que podem gerar arrependimentos ou frustrações. Ainda Milan salienta que o eterno retorno corresponde a circunstâncias existenciais que se repetem porque há possibilidades limitadas diante do tempo, digamos eterno.
O fato do tempo do homem ser linear acaba por apagar a significância de uma vida, de uma história. A ética atrelada ao posicionamento de Kundera é a de que se houvesse uma educação voltada ao pensamento cíclico, a vida não seria tão vã, haja vista que existe, com essa convocação, a possibilidade de maior gravidade conferida à própria existência, a sugestão de que a felicidade adeqüa-se sobremaneira a esta mentalidade, já que “a felicidade é o desejo da repetição”. Assim, o autor circunscreve sobre o amor fati nietzscheano entre os acasos e os retornos a uma belíssima obra que incita ao destronamento dos conceitos cristalizados e das verdades absolutas.

Dados do autor:
Milan Kundera nasceu em Brno na Checoslováquia, em 1929. Instruiu-se em musicologia. Estudou literatura na Faculdade de Artes da Universidade Charles e logo transcorreu à Academia de filmes. Não terminou os estudos por motivos políticos, além de ser banido do Partido Comunista. Tendo seus livros primeiros removidos do mercado checo, estes herdaram da França as primeiras edições, em face de sua mudança para Paris em 1975.

Referência bibliográfica:
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1983.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Lançamento do Neres

outrosilênciosssss................

Beatriz Bajo

----------------------,----------------,----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------!-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.
-------------?------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------, ------------“e o mistério de nascer num rio com lábios abertos” (NERES 2009: 31).
----------------------------------------------------------,------------------------------------------------------------------------------------------------------------.-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.---------------------------------------------------------- “a vida caminha em suas pernas & uma serpente pergunta/ que horas são. perdi a confiança nos relógios. siga seu caminho./ os ponteiros são duas crianças com cheiro de suicídio.” (133)
-----------,------------------------------------------------------------------------.--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------:

sussurram
somos
o castigo na espera de passar pelas sete portas
o ventre despovoado de raízes
a noite fechada dentro do homem
a estrada no limite do corpo
a segunda língua de tudo que não existe
a palavra que ninguém responde
a insônia das águas em sangue doente
o passo lento das casas e suas pálpebras pesadas (33)

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.------------------------?--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------, --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.
-------------------------------------------------------------------, -----------------------------------------------------,-------------------------------------------------.------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------.

estou aqui tragédia a morder poeira
trago em mim um epitáfio e uma romaria
não sei ser quase sou pedra barro lama sêmen
semente de relógio em um deserto de cicatrizes
minha cruz a marcar o silêncio
não me ofereça o paraíso preciso de uma sombra
em mim os cavalos e os pássaros invocam o sacrifício
o poema com suas lâminas se aproxima a caminhar
além das preces. (143)

------------------------------------------------------------------------------------,---------------------------------------------------------------------------------------------.------------------------------------------------------------------------------------!------------------------------------------------------------------------------------.--------------------------------------------------------------------------------------.


REFERÊNCIA:
NERES, José Geraldo. Outros silêncios. São Paulo: Escrituras, 2009.


Sobre o autor

José Geraldo Neres nasceu em Garça, SP, 1966. Poeta, ficcionista, roteirista. Co-fundador do grupo Palavreiros. Integrante do Grupo Gestor & Conselho Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas, e responsável pela seção Outra Margem, da revista homônima.
De 2005/2008, assessor literário da Secretaria de Cultura de Diadema. Curador da Sala Permanente de Vídeos da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará.
Obras: Pássaros de papel (Projeto Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007). Publicações em antologias, revistas e suplementos literários no Brasil e exterior.Organizou, com Floriano Martins, a Antologia de Poetas Brasileiros (Huerga & Fierro Editores, Espanha, 2007).
Vários prêmios literários e incentivos, dentre eles: Bolsista da Fundação Biblioteca Nacional (2007/2008), Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural, Ministério da Cultura, (2005), Mapa Cultural Paulista – Catálogo de Artes (2003/2004, 2005/2006 e 2007/2008), Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody (2006, 3º Lugar), Prêmio Cultural Plínio Marcos – Mostra de Artes de Diadema (2004), Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho (2004, 4º lugar).Cursou: Oficinas de Criação Literária, Dramaturgia, e Roteiro de cinema em vídeo.
Essa obra foi realizada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, Fundação Biblioteca Nacional, através do Prêmio ProAC - Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros no Estado de São Paulo - 2008. Capa e ilustrações: Floriano Martins. Texto de apresentação/orelhas: Afonso Henriques Neto. Prefácio: Claudio Willer.



Lançamento & Noite de Autógrafos, em 15 de abril 2009 (começa às 18h30 até às 21h30), na livraria Martins Fontes, em São Paulo (metrô Brigadeiro).


Convite - 7 de maio (quinta-feira) das 18h30 às 21h - OUTROS SILÊNCIOS, josé geraldo neres. (Acompanhe os próximos "Diálogos & Outros Silêncios").‏

ALPHARRABIO LIVRARIA E EDITORA LTDA

Eduardo Monteiro, 151 – Fone 4438-4358, Fax 4992-5225 – Santo André

alpharrabio@alpharrabio.com.br

http://www.alpharrabio.com.br/

http://blog.alpharrabio.com.br/

7 de maio (quinta-feira) 18h30 às 21h

Sarau de lançamento do livro Outros Silêncios,

de José Geraldo Neres (Editora Escrituras, 2009)


Haverá leitura de fragmentos do livro pelos atores Carlos Lotto, Rádi Oliveira, Vanessa Castro e Zenaide Paludo.

Performance: Kiusam de Oliveira (corporeidade afro-brasileira).

Intervenção musical: Henrique Crispim (Banda Pierrot).

Apresentação: Dalila Teles Veras, com pintura ao vivo por EMOL.

Serviço:

Livro: Outros silêncios
Autor: José Geraldo Neres

Editora: Escrituras
Gênero: Poesia/Literatura Brasileira
Edição: 1ª Edição
Páginas: 160
Formato: 14x21

Local: LIVRARIA ALPHARRABIO
Rua Eduardo Monteiro, 151, Jd. Bela Vista
Santo André – tel. (11) 4438.4358
www.alpharrabio.com.br


Outros silêncios

José Geraldo Neres pertence, no Brasil, à minoritária família dos poetas que buscam na tempestade das imagens o sumo da verdadeira poesia. Neres se destaca por figurar entre os autores que nadam na contracorrente, no contrafluxo. Para ele, o valor poético está associado à imagem, como aproximação de realidades diferentes, sendo tanto mais forte quanto mais distantes forem as realidades por ela aproximadas.

O prazer da leitura de seu livro Outros silêncios se ancora, antes de tudo, em um sentir-se à deriva no interior de uma extensa metamorfose dos sentidos. Mergulho na sombra úmida da vertigem. São palavras a se desvestirem, camada por camada, do senso comum, desde o brilho de sol invisível sobre peles que cantam, até os confins do esqueleto a uivar um despenhadeiro de incêndios. E por isso o renascimento, um novo universo de palavras que passa a se mover na forma de sintaxes embrionárias, a conduzir a revelação dos sonhos antevistos pelas profecias, arcaicas habitações das primeiras manhãs dos mitos poéticos.

Como destaca Claudio Willer, no prefácio da obra, “a boa recepção da poesia de Neres, atestada por prêmios literários, participações em antologias, coletâneas e edições artesanais que precederam a publicação deste Outros silêncios, não apenas confirma a presença de um poeta de valor: é o indício de uma renovação”.

O texto das orelhas de Outros silêncios é assinado pelo poeta Afonso Henriques Neto e a capa e ilustrações foram idealizadas por Floriano Martins.

Esta obra foi realizada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil – Fundação Biblioteca Nacional – Coordenadoria Geral do Livro e da Leitura, e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo – Programa de Ação Cultural – 2008 (ProAC).


Sobre o autor:
José Geraldo Neres nasceu em Garça, SP, em 1966. Poeta, ficcionista, roteirista, produtor cultural, é co-fundador do grupo Palavreiros. Integrante do Grupo Gestor & Conselho Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas, e responsável pela seção Outra Margem, da revista homônima. De 2005/2008, atuou como assessor literário da Secretaria de Cultura de Diadema e, mais recentemente, curador da Sala Permanente de Vídeos da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará. É autor de Pássaros de papel (Projeto Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007) e tem textos publicados em antologias, revistas e suplementos literários no Brasil e exterior. Organizou, com Floriano Martins, a Antologia de Poetas Brasileiros (Huerga & Fierro Editores, Espanha, 2007). Recebeu diversos prêmios literários e incentivos, dentre eles: Bolsista da Fundação Biblioteca Nacional (2007/2008), Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural, Ministério da Cultura (2005), Mapa Cultural Paulista – Catálogo de Artes (2003/2004, 2005/2006, 2007/2008), Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody (2006, 3º lugar), Prêmio Cultural Plínio Marcos – Mostra de Artes de Diadema (2004), Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho (2004, 4º lugar). Participou ativamente de diversos eventos culturais, tais como: 1ª Bienal Internacional de Poesia de Brasília, Biblioteca Nacional de Brasília – DF (2008), 3ª Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – Fliporto (2007), 1º Festival Internacional de Poesía, Granada, Nicarágua (2005), 5º Encuentro Internacional Literario aBrace – Uruguay (2004), 2ª Mostra de Vídeo do Município de Mauá, com o curta-metragem “A Herança” (2003), 7º Encontro Regional de Escritores de Rio Claro (2003). O livro Outros silêncios, publicado pela Escrituras Editora, recebeu o apoio do Ministério da Cultura do Brasil – Fundação Biblioteca Nacional – Coordenadoria Geral do Livro e da Leitura, e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo – Programa de Ação Cultural – 2008 (ProAC).

http://www.escrituras.com.br

---
Agenda - Próximos "Diálogos & Outros Silêncios" - Maio/2009 * ainda tenho que confirmar
--
16 de maio de 2009, Sábado (gratuito)
Horário: a partir das 18h
Local: Realejo Livros - Av. Marechal Deodoro, 2 - Santos/SP Tel.: (13) 3289-4935
Haverá leituras de fragmentos da obra pelo autor, diálogo com o público e lançamento do livro.
Apresentação/Mediação pelo poeta Ademir Demarchi.
Participação especial:

Percutindo Mundos - música contemporânea caiçara

Márcio Barreto, Galeno Malfatti, Thaís Freitas, Fernando Santos, Paulo Infante.

----
19 de maio de 2009, terça-feira (gratuito)
Horário: a partir das 19h
Roda de conversa com o escritor José Geraldo Neres
e Lançamento do livro: Outros silêncios

Apresentação/Mediação pelo escritor Ademiro Alves (Sacolinha)

Haverá um bate papo sobre: O autor, Leitor, Influências e Processo criativo.

Realização: Associação Cultural Literatura no Brasil e Prefeitura de Suzano.
Local: Centro Cultural de Suzano, Rua Benjamin Constant, 682 - Centro - Suzano - SP Informações: (11) 4747-4180

----

22 de maio de 2009, sexta-feira (gratuito)
Horário: a partir das 19h
Roda de conversa com o escritor José Geraldo Neres
e Lançamento do livro: Outros silêncios

Apresentação/Mediação pelo escritor Luiz Ruffato

O autor, Leitor, Influências e Processo criativo.

Local: Biblioteca Olíria de Campos Barros
Av. Sete de Setembro, 470 - Vila Conceição, Diadema – SP
Informações: (11) 4055-9200
----
* a confirmar
23 de maio de 2009, sábado (gratuito)
Horário: das 18h à 19:30
Roda de conversa com o escritor José Geraldo Neres
e Lançamento do livro: Outros silêncios

Apresentação/Mediação pelo poeta Edson Bueno de Camargo

O autor, Leitor, Influências e Processo criativo.

Local: Câmara Municipal de Mauá
Av. João Ramalho, 305 - Vila Noêmia, Mauá - SP
Informações: (11) 4512-4500, 4512-4539, 4512-4519

Sarau na Vila Cultural Cemitério de Automóveis

Pessoal, o sarau foi lindo...cheio de gente bacana! Londrina é uma cidade abençoada por seus poemas e poetas! quem coordena os eventos da Vila Cultural Cemitério de Automóveis é Chris Vianna, que recebe apoio do PROMIC - Programa Municipal de Incentivo à Cultura. o espaço - homenagem ao grupo teatral, criado pelo escritor, dramaturgo, diretor teatral e ator Mário Bortolotto - oferece um teatro, oficinas, salas para exposições, bibliotecas e bar cultural. as leituras da Coyote, representada por Losnak, foram de altíssima qualidade...a música, a caipirinha...hummm! tudo de maravilhoso no dia nacional da poesia (o dia mundial é 21/03 - UNESCO)...enfim, viva à poesia de todo dia!
Vejam as fotitas:

Boni, Marcos Losnak (editor da Coyote), Chris Vianna, Celia Musilli, Samantha Abreu e Beatriz Bajo.







lugar bom de estar, hein!?

Célia lendo-me na Coyote foi de uma delicadeza...






a Sá depois da caipirinha engatou a 5ª...rsrsrs

quarta-feira, 25 de março de 2009

sobre Dulcinéia Catadora e últimos lançamentos


CATANDO LIVROS, RECICLANDO CULTURA

Beatriz Bajo

Uma graduada em Letras que sempre foi apaixonada por pintura só podia dar nisso. Dulcinéia-Lúcia ou Lúcia-Dulcinéia começou a interessar-se por sucata, trabalhando com ferro e resina, e passou a aproximar-se dos catadores. Papelão + catadores + Lúcia Rosa = Dulcinéia Catadora.
O projeto recebe as mãos de crianças que confeccionam o papel de celulose reciclada. Seus pais vendem o papelão a um real o quilo. Escritores, artistas e catadores comprometem-se com a ideia auto-sustentável de produzirem livros.
O projeto visa à divulgação de autores latino-americanos e à valorização dos catadores, como mote o incentivo à criação e à cultura. Atua desde 2007, em parceria com o Eloísa Cartonera (Argentina), este criado em 2003 pelo artista plástico Javier Barilaro e o escritor Washington Cucurto, em Buenos Aires, com mais de 100 títulos de autores latino-americanos.
Os últimos lançamentos ocorreram no dia 05/03/2009, na Mercearia São Pedro/ SP e os livros foram nada menos que Nego Fogo, de Andréa Del Fuego e Respiração do Labirinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro.

Del Fuego possui um livro de contos esgotado Nego Tudo, por isso, Nego Fogo reascende as chamas das palavras contadas por ela:

Há uma coisa que dissolve ossos, e há outra que os constrói. Foi por isso que te dissolvi, pra você voltar. Voltar com fêmur de macho, calcanhar sem a ferida. Foi por isso que te construí, pra você ir embora. Ir com o joelho rompido e o pulso aberto. Há resíduos da operação, o cálcio do vai e vem, e dele fiz tua tíbia, que é minha, minha flauta.

E Respiração do Labirinto é uma edição bilíngue, um livro inédito de Paspasquiaro com tradução de Beatriz Bajo, como o poema “Flashes de vida laser” (Destellos de vida láser):

Me esvazio totalmente
No basculante das palavras
Beijo o véu da destruição
-Arco-íris negro das têmporas-
Estou & não estou
Ejaculando / como sempre / luz
O pó é também
Espírito & folhagem de meu corpo
A agulha fosca do viver
Rompe a cratera pueril de minhas ânsias

Me vacío totalmente
En el carro de volteo de las palabras
Beso el filo del derrumbe
-Arcoíris negro de las sienes-
Estoy & no estoy
Eyaculando / como siempre / luz
El polvo es también
Espíritu & follaje de mi cuerpo
La aguja hosca del vivir
Rompe el cráter aniñado de mis ansias


Vale à pena conferir mais uma parceria de Dulcinéia com a Cartonera e, sobretudo, prestigiar essa iniciativa, tão ousada e admirável, e fomento de projetos sócio-culturais como esses.


Fotos do lançamento, Mercearia São Pedro/SP:

Lúcia Dulcinéia e Beatriz Bajo (eu...rs)

que encontro bonito: Andréa Del Fuego, Marcelino Freire e Beatriz Bajo

nós e os flashes

os livros ficaram estupendos!



ENTREVISTA COM ANDRÉA DEL FUEGO

Beatriz Bajo


FOTO: Edson Kumasaka

Andréa del Fuego é uma moça que guarda a incandescência e a docilidade no trato com palavras. Nasceu em São Paulo, em 1975, e tem nos prestigiado com a trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu (projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo), um romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal e um volume de crônicas Quase caio. Além disso, ilumina as antologias Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, Capitu mandou flores, entre outras. Lançou nesse mês Nego fogo pela Dulcinéia Catadora e mantém o blogue http://www.delfuego.zip.net/

A gente faz perguntas e ela responde num riscar de fósforo, com a mesma gentileza e leveza de seus cachinhos de idéia. Vale à pena conferir!

AP: Por que negando pela segunda vez? O fato de o livro de contos Nego tudo ter sido esgotado foi crucial à escolha do título: Nego fogo? Sua escrita é a da negação, como os negativos de fotos? Haja vista que os outros livros também possuem essa conotação Minto enquanto posso e Engano seu.

Andréa del Fuego: Sim, um título saiu do outro já que é quase o mesmo livro. Minha escrita não tem um projeto por trás que a oriente, mas tem uma constância, uma vontade de seguir, melhorar, avançar, sair do lugar.

AP: Como foi o encontro de Del Fuego e a Dulcinéia Catadora? Conte-nos sobre esse último lançamento.

Andréa del Fuego: Coleciono os livros da Dulcinéia, tenho quase todos. Um dia resolvi mandar alguns contos para a Lúcia, a editora, pois adoraria fazer parte da cartonera. A Dulcinéia Catadora é uma proposta arejada de publicação que, inclusive, está em muitos países da América Latina. O lançamento também é mais uma celebração de amigos na mesa de bar.

AP: Quais as grandes diferenças entre teus livros? Ou há uma espécie de sequência?

Andréa del Fuego: Há os três primeiros livros de contos e há dois juvenis. A diferença entre eles se dá pela própria ocasião da produção de cada um. A cada livro se inicia um processo que se refere a ele e nunca ao próximo. O que serviu para um não servirá para o outro. É sempre do zero que surge um novo livro, não tenho a sensação de estar escrevendo o mesmo livro em cada título, mas possivelmente há um tema, um personagem ou um ruído recorrente.

AP: Como foi essa vereda à escritura ao público juvenil (um romance e um livro de crônicas). Existe uma real distinção entre esse público e o adulto? Você concorda com essa categorização?

Andréa del Fuego: Se há uma distinção entre público adulto e juvenil é essa: o público juvenil é muito mais exigente, é um leitor que se lembra do título do livro e do personagem, nunca do nome do autor. É um leitor que não contextualiza como o público adulto, o livro se encerra nele. Tem sido interessante escrever juvenil, é um terreno enganosamente macio.

AP: Fale-nos desse encurtamento do conto e o esfacelamento dos gêneros com a prosa poética. Você escreve pensando nisso? Como vê sua produção literária nesse contexto?

Andréa del Fuego: Não penso nessa transformação, nem no gênero. O que me levou, na prática, a escrever um conto curto ou curtíssimo foi a experiência com o blog. Comunicar-se em uma pílula, em segundos. Essa portabilidade do conto, para falar na palavra da vez, a portabilidade. A possibilidade de mudar de operadora mantendo o mesmo número, ou seja, mudar o veículo (livro-internet) sem perder a literatura. Esse exercício acabou em dois livros (Nego tudo e Engano seu) e só. Ao escrever romance nada disso serve mais, é o zero outra vez. Estou agora em pleno zero, começando um romance.

AP: A internet contribui ao esvaziamento dos conteúdos ou é uma ferramenta promissora à produção artística?

Andréa del Fuego: Quanto à desvalorização do texto, tão “banalmente” exposto na rede, dou como exemplo um caso própria. Thays Lourenço, uma leitora do meu blog, produziu artesanalmente um livro com uma série que publiquei no blog. Ela enxergou o livro na tela. Ou seja, acho que a literatura carrega o livro, e não o livro carrega a literatura. A literatura pode ser exposta de inúmeras formas, inúmeras vezes e sempre terá a aura de um livro que é o seu veículo original. Outra coisa, estamos numa época fascinante de produção e publicação, e isso não deixa o leitor e o escritor menos capazes do rigor.

AP: Tua arte caminha para...

Andréa del Fuego: ... caminha para frente, escrevo com a experiência pessoal que se coloca disponível no processo criativo. Sobre essa experiência e memória vem a invenção. O estofo emocional e intelectual de cada personagem não sai do nada, sai do autor. Quanto mais o autor avança, maiores serão seus personagens. Quero caminhar para o futuro, como escritora, ainda que isso não se reflita nos livros e eles sejam lidos como lixo do tempo.

AP: Conte-nos sobre os próximos projetos e os desejos ardentes.

Andréa del Fuego: Deve ser publicado esse ano, pelo Ministério da Educação, uma novela com o título provisório de O cobrador. A publicação é o prêmio do concurso Literatura Para Todos que ganhei em 2008. O livro será distribuído em bibliotecas das escolas estaduais, municipais e federais do país. Tenho um romance adulto inédito, Os Malaquias, que deve sair no segundo semestre e vem outro infantil chamado Irmãs de Pelúcia. Estou escrevendo outro romance adulto, e claro, mantendo o blog.


BIBLIOTECA VIRTUAL - CONTO DEL FUEGO

GIRA

Andréa del Fuego

Nunca vem, quando vem, vem fraca. Meninota me disseram que adulta eu ia desenvolver mediunidade. E como? Sou rádio de pilha minguada, não sintonizo a voz. Porque não recebo, não posso girar a saia, acender um pito. Fico de assistente, chego a ter bondade antes de entrar no centro, mas pego os nomes que quero perto e deixo no bolso do avental. Vai que a cigana lê.

Fico ali entre o médium e o consulente. O pai-de-santo recebe uma cigana ruiva e gorda, ele é magro e se senta feito obeso num banco miúdo; ajeitando as dobras do outro mundo.

Faço de um tudo pra traduzir o que diz à moça. Anoto os banhos e as preces. Ela é noiva e quer que um fulano, casado, a esqueça; e rápido, está sem paciência. É a primeira vez que pedem pra afastar e não juntar, disse a cigana.

É que afastando ela queria unir, matemática enrolada, raiz de três.

Quando a última foi atendida - só vai moça no terreiro - pedi pra cigana ver minha causa. Ela foi dizendo que me faltava concentração nas sessões, que faltava disciplina, constância. Achei que quem falava era o cavalo e não o cavaleiro. Concordei com aquela mistura de magro com gorda e acendi as velas roxas, junto com a batata doce.

Vou levando.

O pai-de-santo é meu marido, culpa minha. Um dia o levei ao centro pra benzer, mandaram desenvolver, fazer a cabeça; justo ele sintoniza a voz. Agora faço a ponte entre ele e moças que querem homem. Num centro, o que se pede é a volta de alguém, eu inclusa. Meu marido, de cigana nos ombros, faz voltar até a memória. Sim, é pra ele enquanto aparelho que peço pra outro homem vir me buscar. Ele de nada se lembra depois que sobe a cigana, e me agradece.

Pedi pra conhecer o que impedia minha fuga e ela veio. Veio, aqui no centro, a esposa do amante que não me larga nem me toma. Perturbada, veio pedir pra cigana que eu, logo eu ali ao lado, saísse do caminho. Ri. Sabe quando? Nem quando o pai-de-santo é o marido da chaga dela, nem quando eu mesma é que escrevo o despacho feito com meu nome.

Meu prazer é ver fazer e desfazer; quando a fé não é minha, desconfio do milagre.


Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora da trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu (projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo), do romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal e do volume de crônicas Quase caio. Integra as antologias: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, Capitu mandou flores, entre outras. Mantém o blog www.delfuego.zip.net.


ESQUINA LITERÁRIA - POEMA PAPASQUIARO



COITO PAUTADO

Caldera de diablos eléctricos / mi piel a la caza de tus hornos
Entrada la noche en mis latidos
la fiebre levanta pirámides de agujas capaces de aparecer montañas en mi oleaje
Tu cuerpo es mi solazo : mi sótano negro / mi Rosa Mayor & mi pandero
la perrera de éter & cadencias que me vuelve 1 bruto pípila latigueador de camas
& lecho de Grijalvas sexo en selva
& nave florida & rinoceronte con arpón de plata
En la calle o en cuartitos
Enterrado en arena o en tus besos
Astros de esperma : martillos vivos escupo empujo lanzo al frente
a la calle o labio menguante en que te arrulles
Ni 1 dedo perderé / ni 1 mano de mis naipes

Tu rocío : tus terremotos son mi hostia / son mi droga
el pez de sangre que derrama con su danza a mis océanos
Desde estas alburas ya no sé
si herré tu silla de montar o tus pezuñas
La cama / que heredaste de tus tías aún me tienta
La Maga de Oliveira & de Cortázar la encuentro bajo el grifo goteante de tus aullidos blancos
Caldera horneada en la lira de sátiros sudados

Paisaje que en su ojo / elije los pinceles & el activo en los que ha de bañarse el Action Painting
Caldera de diablos eléctricos

tu piel contra mi piel hace milagros


COITO PAUTADO

Caldeira de diabos elétricos / minha pele à caça de teus fornos
Entra a noite em minhas pulsações
a febre levanta pirâmides de agulhas capazes de aflorar montanhas em minha ressaca
Teu corpo é meu solaço : meu sótão negro / minha Rosa Mayor & meu pandeiro
o
canil de céu & cadências que me tornam 1 bruto parvo açoitador de camas
& leito de Grijalvas sexo na selva
& nave florida & rinoceronte com arpão de prata
Na rua ou em quartinhos
Enterrado na areia ou em teus beijos
Astros de esperma : martelos vivos cuspo empurro lanço ao rosto
à rua ou lábio minguante em que gemes
Nem 1 dedo perderei / nem 1 mão de meus naipes

Teu sereno : teus terremotos são minha hóstia / são minha droga
o peixe de sangue que se derrama com sua dança em meus oceanos
Desde estas
alvuras já não sei
se ferrei tua
sela ou teus cascos
A cama / que herdaste de tuas tias ainda me
tenta
A Maga de Oliveira & de Cortázar encontro embaixo do grifo gotejante de teus uivos brancos
Caldeira enfornada na lira de sátiros suados
Paisagem que em seu olho / elege os pincéis & a ferramenta nos que hão de banhar-se no Action Painting
Caldeira de diabos elétricos
tua pele contra minha pele faz milagres


Mario Santiago Papasquiaro, alcunha de José Alfredo Zendejas Pineda, nasceu na Ciudad de México, em 25 de dezembro de 1953 e faleceu em 10 de janeiro de 1998. Foi um poeta mexicano, fundador do movimento infrarrealista. Este movimento poético é inaugurado pelo chileno Roberto Matta, depois de ser expulso do surrealismo por Breton. Em 1974 reaparece no México, sobretudo entre escritores como Papasquiaro e Roberto Bolaño.
Segundo o Manifesto Infrarrealista (1975), escrito por José Vicente Anaya, “o infrarrealismo é a espontânea e inesperada aparição da chave determinante que assalta
e destrói todas as regras que constringem e retardam o ser humano e suas manifestações. Assim, o infrarrealismo é a contingência que luta com os significados e mudanças que nunca podem ser previstas pelo racionalismo nem sequer com a ajuda de toneladas de equipes de precisão. O infrarrealismo está aquí, penetra em tudo e viaja no veículo do imediato”.

A antologia Respiración del laberinto foi feita em 2008, uma seleção de escritores como Bruno Montané, Juan Villoro, Diana Bellessi, Homero Carvhalo, Pedro Damian, Tulio Mora e Joseantonio Suarez, inédita até agora.

Revista Polichinello




É uma honra imensa fazer perta dessa revista, tão importante no cenário literário contemporâneo.



Parabéns a todos dessa equipe e um muito obrigada ao Nilson Oliveira...longa trajetória à Polichinello! ;)


Lançamento Não-lugar e Polichinello‏




o jornal





Apresentação

esquina literária

O rubro verso
branco
sussurrado
pin
gente
pin
gando
nos recônditos
de toda
insana prosa
orgânica
de sina
por
entre
os sítios virtuais
que os enxovalham
cruzam-se
aqui nesta esquina.

Na tentativa de que a literatura contemporânea possa ser discutida e excitada através de novos escritores, cruzamo-nos entre tramas e outros tropeços poéticos e prosaicos, quiçá fraternos!!

Esse blogue foi criado com o intuito de ser uma ponte literária ao site Armadilha Poética, que passa por reformulações e em breve estará sacudindo com o cenário cultural e virtual contemporâneo.