segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene



Heidegger deixou os rastros de que “Jamais e em nenhuma língua o pronunciado é o dito.”
(HEIDEGGER, 1969, p. 44).


O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene, trata exatamente desse artifício de amontoar palavras para o estratagema do que mais se aproximaria da verdade: “Só alcançamos as palavras. E as palavras são sombras. A verdade é uma floresta nebulosa, porque a verdade não é a verdade, são palavras. Assim, reinventar o mundo, meu caro poeta, é ressignificar as palavras.” (p.9). O livro passeia pela mata espessa, entre as emboscadas, com a opacidade de quem cose para dentro, interceptando o que é brilhante.
Em súplica de franca natureza, o verso responde que “O mundo inteiro estremece no punho” (p.10) e denuncia o poeta como o responsável pelas mazelas de tudo, haja vista que “O mundo inteiro é culpa de quem imagina/ não de quem vive” (p.11). A trama dessa obra está aquém e abaixo da forma e das fôrmas, no cultivo em perfil denso de nascimentos. O trabalho dO livro das sombras tem a gravidade e gravidez dos signos em inauguração.


Gota
abre-se
silêncio 
interpelado chão 
avança 
furiosa 
penetrando a terra 
vai rasgando o chão [...] 


A vida fervilha em seiva. Uma flor borbulha pétalas. Ouve a respiração ofegante das folhas donde soa em ebulição o silêncio. - Um cardume de mãos Invisíveis se move dia e noite semeando suas sementes. (p.16). Assim Léo arquiteta um livro-casa que abriga as correntes do inconsciente pessoal, das profundidades que reinventam o mundo, onde se encontram as ligações que fazem parte das raízes de tudo o que se é e do que se manifesta. 
Entretanto, seu trajeto é reverso; o caminho é todo árvore em sussurro. Este “é o destino dos homens// (Raízes nos habitam)” (p.18). Mais que a coisa, busca-se sua sombra. No poema “O caminho das árvores”, percebe-se a bela metáfora da mulher-árvore. Toda feminilidade é alcançada em versos de uma sensualidade rica e apurada. Avança lenta e cautelosa sob o peso de seus galhos e seus ramos vestida de flores e sua pele de folhas. Avança pela intimidade dos caminhos. [...]Ela percebe? Percebe! Percebe! É bonita demais pra não perceber insinuações. Para mulheres assim, o mundo é inteiro uma insinuação. (pp.18-9). 
Assim que a trilha à leitura dO livro das sombras vai sendo inventada em plena desarmonia da natureza pa[lavrada]: “a mulher é uma árvore que renasce.// A verdade não é o que existe,/ é o que a gente deixa existir.” (p.19). Na mesma medida, a concepção das novas verdades e dos significados estão em gestação, arvoradas de sentidos a serem inaugurados. Fetos afetados no útero do universo. As mulheres carregam sementes no ventre. Vem das suas certezas a altivez com que me aplaca o juízo. E da alma inquebrantável de verdades a completude com que me atrai os sentidos. Ela traz a segurança das mulheres grávidas das mulheres prenhes da verdade. A verdade o estágio mais alto de toda beleza.(p.19). As raízes de uma árvore não são fáceis de perceber; contudo, são imperativas à sobrevivência da mesma. 
Também essa é a proposta dos pequenos silêncios de Léo Mackellene, em sua obra que prepara um terreno abrigado da palavra. Em “O jardim das horas”, Dois deuses acima de nós disputam o controle de nossos atos o destino e o acaso. (p.29) o que se percebe é a ida ao encontro do silêncio ao desvendamento do que ainda não foi re-velado. O oculto das coisas está nessa sacralidade silenciosa que é a verdade. A des-coberta acontece em sigilo; é na refração que se pode alcançar. 
Ler... É uma árvore que desperta, respira profundamente e se ergue. Deixa que a palavra te leve, que ela é um barco que navega sem leme. (p.32). O silêncio esculpe a palavra; o auge do silêncio é a transcendência do tempo: “Pois entra e senta/ que o mundo é secular e ele pesa./ Diz como quem tem fome./ Pára...” (p.33). Fabulando as significações é que as palavras excursionam “O jardim silenciado”, atuando em processo metafísico, com a ciência de serem reflexo. Eu sou o último galho o que sobrou... e aqui estou sob a sombra dessas árvores e dessas plantas entre as dobras dessas páginas brancas, vivendo secretamente em ti. (p.46). Aqui se dá o esfacelamento do ser, enfraquecido de saber-se perecível. Vestígio humilde de certificar-se abaixo da sombra das palavras que não alcançam a verdade, mas, incansavelmente, procuram-na: “Aqui,/ um segundo/ é a eternidade doendo.” (p.47). 
O poema que encerra O livro das sombras é “O quintal dos dias”, o terreno atrás da casa-livro, em que se operam as oportunidades da linguagem. Léo novamente transubstancia o indivíduo, agora fundindo à árvore a sabedoria humana. Gigantes sábios e benevolentes retiraram-se dos campos - onde havia gente - E embrenharam-se na floresta, Transformados também em árvores. (p.50). Descarnando-se, ou seja, fugindo da solidez do que já está posto, a obra sugere uma reflexão, uma compreensão que se dá além das palavras, em sua virtualidade: “O fruto é uma revolução silenciosa.” (p.50). 
Léo Mackellene empenhou-se com uma destreza assombrosa sobre o que se passa através dO livro das sombras, em confecção íntima e precisa de uma textura sobre a matriz da palavra – o silêncio –, alcançando o que se pretendeu ou se pressentiu construir no enovelado e nodoso versejar grávido de sentidos.



referência:
MACKELLENE, Léo. O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios. Fortaleza: Mangues & Letras, 2006.




sobre o autor: 
Léo Mackellene nasceu em Fortaleza no Marco Zero dos anos 80. Tocou em bandas de rock. Publicou poemas e contos. Saiu de casa aos 11 anos. Morou em cidades diferentes. Amou, se embriagou, chorou. Participou do movimento estudantil e hoje vive como mestre em literatura (UnB) e leciona na Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, na terra de Domingos Olímpio, Sobral. Mantém o blogue http://olivrodosmaispequenossilencios.blogspot.com/


domingo, 30 de outubro de 2011

Cantáteis, de Chico César

Cantáteis - cantos elegíacos de amozade
: de entontecer
a capa é escadalosamente linda, com xilogravuras de João Sánchez (editor e impressor do Estúdio Baren) que dão o tom da literatura de cordel no mais alto estilo e vigor. o livro é surpreendente do início ao fim. o eu-lírico apresenta-se cordialmente, vindo com a primitividade poética característica das forças literária e mitológica que edificam a história humana e como num jogo mesmo de sedução, ele surge:

1
seu poeta preferido
bem antes de ser ferido
já era ferido antes
não visitou as bacantes
as nereidas e as ninfas
quis beber de sua linfa
esperou e não morreu
esse poeta sou eu
de lira desgovernada
deliro musa amada
órfão bisneto de orfeu

as estrofes são de 11 versos emparelhados e seguidos da intercalação ao final - a a b b c c d d e e d - como fósforos que vão se acendendo um no outro, para culminar na fogueira deliciosa da poesia dançarina, com pés ligeiros deslizados entre métricas rimas e neologismos de Chico César, que além de ser um "cantautor" brasileiro de repercussão internacional com hábil talento, sabe trazer a música pra dentro das páginas com extremo polimento, esmerilhando ideias, sensações, até o esmerado panorama de imagens ritmadas e encharcadas de significados.
28
nem parnaso nem concreto
o amor analfabeto
não lê poemas de amor
tanto faz lápis de cor
ou computador que escreva
a linguagem mais longeva
que o amor reconhece
é o próprio amor, sua prece
é a pane do motor
é o silêncio do tambor
é a bomba na quermesse

numa despedida dentro da manhã que andava de carro até o aeroporto, Chico me contava de um livro que havia escrito em 1993 para conquistar uma mulher pela qual fora apaixonado. ele o fez manuscrito num caderninho (da primeira a última folha) e entregou-lhe como presente de natal.
achei tão comovente a estratégia e fiquei curiosa pra lê-lo. não conhecia detalhes do mesmo, a não ser uns versos recitados por ele que ficaram guardados com a emoção do show em que nos conhecemos, quando entreguei ao Chico meus livros.
nesta época de sua vida, CC morava em sampa. talvez isso tenha contribuído para que sua obra se tornasse uma rapsódia, porque é uma canção costurada de relatos e retratos da cidade tão exótica e camaleônica, engravidada de cores e gentes lambendo a mesma língua. Chico e seu eu-lírico de Cantáteis passeiam pelas ruas macunaímas seguindo o molejo da vida anti-heróica paulistana, mas com o mais nobre dos argumentos: o amor.

55
sei que no tatuapé
ninguém lê lou salomé
nitzsche rilke nem paul rée
ninguém não: lá tem você
e deve ter mais uns poucos
toda terra tem seus loucos
profetas visionários
tem quem ganha altos salários
e escondido come merda
e o lindo bebê que herda
sangue podre funcionário

e aí, o amor que Chico sentia no peito não coube mais, nem serviu a apenas uma mulher, seu sentimento transbordou pela cidade; assim como ela faz insistentemente com a garoa que alcança, mesmo que mansamente, todos os espaços, umedecendo praças, calçadas, os filetes descobertos dos comércios. também o poeta se infiltra no sentimento do povo daquele tempo e lugar, na angústia daquela gente sendo esmagada pelo concreto das rotinas e precisando tanto de serem salvas pela poesia insandecida dos peitos abertos aos encontros afetivos e efetivos.

78
morte e vida severina
pro filho de etelvina
circo césar circunspecto
claríssima lispector
luz na alma das mulheres
sou cantor não sou alferes
confidente esquartejado
mas na praça do mercado
minha língua tagarela
canta ainda o nome dela
doce morango mofado

Chico é um poeta. nunca tive dúvida. mas seu livro ratifica o mel da linguagem aliado a um requinte de passeios literários, folclóricos, populares. não há ingenuidade nem na forma nem no conteúdo de seus versos. tudo é poesia comovendo as páginas, como vida nascendo das palavras atrevendo-se aos desdobramentos imagéticos.
Obviamente, o poeta conquistou o amor da musa evocada em todo o livro. o da mulher, o da cidade e o dos leitores que se dispuseram a serem seguidos por sua mão enfeitiçada de poesia. se colocar a mão na boca, aí espanta pássaros da alma, enroscados nas cordas vocais já tão caras a tantos admiradores de seu talento musical.
REFERÊNCIA:
CÉSAR, Chico. Cantáteis: cantos elegíacos de amozade. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

DADOS DO AUTOR: Chico César nasceu em Catolé do Rocha, na Paraíba, em 1964. Aos 16 anos foi para João Pessoa, onde se formou em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, enquanto participava do grupo Jaguaribe Carne, que fazia poesia de vanguarda. Aos 21, mudou-se para São Paulo. Trabalhando como jornalista e revisor de textos, aperfeiçoou-se no violão, multiplicou as composições e formou um público. Hoje tem uma carreira artística de repercussão internacional. A maioria de suas canções são poesias de alto poder de encanto linguístico.
Em 1991, foi convidado para fazer uma turnê pela Alemanha e passou a dedicar-se somente à música. Formou a banda Cuscuz Clã e passou a apresentar-se na casa noturna paulistana Blen Blen Club. Em 1995 lançou seu primeiro disco Aos Vivos e seu primeiro livro Cantáteis. Tomou posse na presidência da Fundação Cultural de João Pessoa (FUNJOPE) e maio de 2009. Desde janeiro de 2010 é Secretário de Cultura do Estado da Paraíba.
FOTO: Ana Oliveira

sábado, 19 de março de 2011

Maria Bethânia canta "O doce mistério da vida"


A gritaria contra o blog de Maria Bethânia é uma mistura de ignorância, preconceito e mau-caratismo.

Ignorância, porque parte de idéia absolutamente falsa de que os produtores do blog – que pretende exercer a tarefa vital de divulgar a poesia – recebeu ou vai receber este dinheiro do governo. Juro que tenho saudade do tempo em que se lia fato ou ficção, hoje o que mais há são equívocos e mentiras, que não são um nem outro. O fato é que a única coisa que os produtores do blog receberam do governo foi a autorização para se humilhar, pedindo a empresários, de porta em porta, que considerem a possibilidade de, ao invés de entregar parte de seus impostos ao governo, patrocinar, com a vantajosa exposição de suas marcas, um blog de uma extraordinária artista brasileira, blog este que tem como objetivo divulgar a poesia, não há tarefa mais nobre. Nada garante que os produtores do blog terão sucesso em sua jornada de mendicância entre a elite empresarial brasileira, frequentemente iletrada. O mais provável é que consigam apenas uma parte desta verba e tenham que redimensionar o projeto, o que seria uma pena. Na minha opinião, o governo brasileiro deveria tirar do seu caixa o dinheiro (1,3 milhões de reais, uma ninharia perto da roubalheira do Detran gaúcho, dos pedágios paulistas, da máfia do governo Roriz/Arruda no DF, etc, etc...) e entregar para a Maria Bethânia, junto com um buquê de rosas e um cartão, pedindo desculpas pela confusão.

Preconceito contra a internet, porque – como muito bem lembrou o Andrucha, na Folha: "Se fosse documentário ou filme para ser visto por cinco mil pessoas no cinema, ninguém estaria reclamando. Parece que internet não é um meio válido. Lá [no blog], os vídeos vão ser vistos por milhões, e de graça”. A distinção que alguns ainda fazem entre os meios cinema, televisão e internet seria engraçada se não fosse um empecilho ao desenvolvimento do país. Preconceito também contra os nordestinos, nas críticas sobram piadas contra os baianos, quase todas vindas do mesmo gueto branco direitista no enclave paulista, enfim, os eleitores de Kassab e Serra, gente que lê e cita a revista Veja e beija imagens de santo para ganhar voto e acha que poesia é "uma besteira".

Mau-caratismo, porque a “polêmica” criada pela notinha da Mônica Bergamo assanha, para variar, o furor udenista que almeja – e obtém – manchetes moralizadoras. “Eu sou melhor que você”, gritam o lobão e também os três porquinhos, unidos em sua santa cruzada. Um publicitário engraçadinho – mais um – fez um blog que lhe garantiu seus 15 minutos de fama, espinafrando a Bethânia. "Criei o blog porque não recebi uma bolada do MinC e achei injusto", comenta o pândego. Pergunta: era para ser um piada? Ele pediu algum dinheiro ao MinC? Em caso afirmativo, apresentou algum projeto? Qual seria? Com que objetivo? As críticas e piadinhas sobre o caso me fazem lembrar de uma das considerações de Hamlet, matutando se vale a luta ou é melhor acabar com a agonia: “o achincalhe que o mérito paciente recebe dos inúteis”. (Na tradução do Millôr.)

Chega a ser constrangedor ter que relembrar aos mais jovens que Maria Bethânia é uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos. Seus incontáveis discos e shows são um valioso patrimônio nacional, seu trabalho de divulgação de dezenas de compositores brasileiros ao longo de sua carreira são uma herança que ela deixa ao Brasil. Bem vale alguns barris do pré-sal. Talvez tenham sido os show de Bethânia, lá nos anos 70, meus primeiros contatos com a poesia de Fernando Pessoa e também com a prosa-poética de Clarice Lispector. Vai aqui, a ela, meu muito obrigado.

FONTE: http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/gritaria-contra-o-blog-de-maria-beth%C3%A2nia-%C3%A9-uma-mistura-de-ignor%C3%A2ncia-preconceit

dica de Ana Rüsche: um blogue que reúne poetas, atores e videomakershttp://fubap.org/365poemas/

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sarau Sereia Ca(n)tadora

O selo de livros artesanais Sereia Ca(n)tadora promoveu nesta sexta-feira (25), às 20 horas no Sesc Santos, o lançamento de três novos títulos de poesia: Olho por Olho, de Regina Alonso, A morte de Herberto Helder, de Marcelo Ariel, eHI-KRETOS, de Paulo de Toledo. É o Sarau Sereia Ca(n)tadora, que contará também com a participação do escritor Flávio Viegas Amoreira, próximo autor a ser publicado artesanalmente, e do grupo experimental Percutindo Mundos. Amoreira e Ariel são dois dos autores deste blog.
Os livros são feitos de forma artesanal, com capas pintadas uma a uma em papelão reciclado. O selo, ideia de Ademir Demarchi, editor da Revista Babel de poesia, conta com a parceria do Instituto Camará de São Vicente - ponto de cultura ligado à assistência à criança e ao adolescente.
Criado entre Santos e São Vicente, o selo Sereia Ca(n)tadora publica livros com papel reciclado e capas de papelão catado nas ruas, trazendo para a Baixada Santista uma experiência editorial que tem se alastrado por toda a América Latina, onde mais de 15 editoras "cartoneras" têm publicado uma série de poetas e prosadores em todo o continente.
O primeiro título da Sereia Ca(n)tadora, Voo de identidade, foi publicado em novembro de 2010. É uma edição bilíngue (espanhol/português) de Vuelo de identidad, do poema peruano Óscar Limache, até então inédito em português, que esteve em Santos para o lançamento.
Uma das capas de Voo de Identidade, de Óscar Limache

Serviço:
Sarau Sereia Ca(n)tadora
SESC Santos

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

SILVAREDO É A COLHEITA DE WILMAR SILVA. OU NINHO OU ROSÁRIO OU ESPINHO?

Silvaredo é a colheita de Wilmar Silva. ou ninho ou rosário ou espinho? é de Silva e de Minas o que pousa no caule-livro do que se planta nos pés dos olhos arrebatados por arranjos de pássaros e flores, solo de colibri, pardal de rapina, anu e salmos verdes, seus cinco livros dentro do Silva, a coleção deste: SILVAREDO.

Quando o vento sacode os versos, corrompe as palavras: “eu-curió, exangue, por t, despetalo-me” (36). E o pássaro bule com a pássara por meio de vocábulos onomatopaicos - "onde eu-rouxinol, chilreio agudos por ti"(46) - que verbalizam a ânsia do eu-lírico, assobiando aos interlocutores – haja vista a frequência de vocativos: “floro, palmas eu-estuário, planície/ de sapotis, onde te canto, ó patativa /” (23).

As palavras ganham cor em seu atrevimento de personificar aves e flores e inverter suas formas e cortá-las em arranjos de pássaros e flores. No entanto, o corte é interno e o poema é lamento denso, profundo e coalhado de antíteses e dores em tons terrosos. Wilmar é rocha que se arrebenta quando a água vai cair e vira pássaro e voa com as asas dos versos em eclipse, em elipse, todavia resplandecentes, como em " Arranjo de zabelê nenúfar, dia 13":


eu, vertical, crispo nuvens de juncos

e zabelê, percebo, eu solcris em eclipse

clave e vermelho, poente – fogo e archote

em clima de erosão, te entorpece,

ó alado arcanjo que eu chamo de ariel,

antes todo vale em aclive pelo declive

agora, aqui – sobre a origem da água,

desvio por igual, retinas em debrum

íris afluentes – neve, aragem, brisa leve

que rasga nenúfar / oceano e sertão (29)


Em solo de colobri, há fabricação de ninhos e volúpias. Sempre a escolha é por palavras enérgicas, remetendo à virilidade masculina e à força da natureza: “sob a neblina da primavera/ rompo [ grafo pela sesmaria, no cume e montanho/ crisântemos acesos ao sol/ na clave do olhar, melnéctar” (57). O eu-lírico não metaforiza os elementos naturais, mas estes se manifestam naquele, como em “montanho”. Nomes são verbos através dos quais o poeta se transubstancia.

Em pardal de rapina, novamente aparece a sensualidade e a caça pela beleza – feminina –, já que há poemas cujos títulos são referências a deusas como Afrodite, Vênus, Tétis, Dríade, além de Noiva e de Eros, deus do grego amor (cupido): “varou em mim tua papoula/ de ópio e ouro nos lábios/ erotizou-me tua pássara/ antes fugidia e fugaz” (87).

Em outro momento, Wilmar retorna às raízes, às corrosões: “onde habita a insana/ a seiva e a via-láctea/ sou punhal e púpura” (99), às sedes e às esfomeadas aspirações poéticas, ainda que inconsoláveis como em lenitivo “mesmo que eu faça um poema/árido e torrencial é o sertão” (101) ou em o pão: “ouço teu ir dentro da noite/ e fico preso em mim” (114). No entanto, embandeira, alguma fagulha de esperança lambe suas letras: “longe de mim e longe de ti/ aves ganem no inverno da noite/ crianças ilhadas à lua/ haverão de molhar as almas” (117).

Em “anu”, a poética wilmariana configura o céu das palavras – estas brancas dentro de um quadrado preto, distinguindo-se da outra brancura das páginas –, fabrica-as, remodela-as, constelando significados: “poçudespelhosáslisárguacor” (127), desdobrando o sistema linguístico como se desdobra o firmamento...basta prestar atenção e as imagens surgem no céu, feito palavras...assim como a abertura que o poeta comete em seu livro curiosamente semeado de estrelas visuais e sonoras.

Também o eu-lírico é um chacal, animal carnívoro de hábitos noturnos, caçador que se alimenta de carcaças concretistas, antropofágico poeta rasgando verbos dentro da galáxia semântica que fulgura assim assim:


triçaentrioandorinhasanu

antespeleveredaeupaulavra

viropássarosoumesmoanu

perdíceonocoraçãodeminas

essepassarinhosóldscamiar

riomarnointeriordasgraiz (156)


Em “salmos verdes” há brancos à esquerda e versos à direita. Silêncio e expressão. Um antes do outro...como tem de ser. E fusões e entroncamentos nas repetições de palavras roda-vivas e de conectivos sem tempo, como num transe, seções em ramos...remos? rezas? Ruídos? Há sempre lágrimas em cada prece-poema: “mina d’água para roda d’água/ fazer flor d’água” (169) ou:

o tigre abatido na caçada de espingarda e curupira

a pele do tigre exposta para mirar e farejar

e passar a pele das palmas e puxar a pele das plantas

e tocar de leve e comprar e levar para expor no mármore da casa

e depois e sempre pisar sem pena e nem dó

pisar com as plantas como se pisa na terra que também tem alma

e pode chorar e está chorando e chorando torrencialmente

e mais que a chuva e muito mais que a tempestade

essa tempestade toda

só de poemas que eu tenho lá na entranha do meu sangue (195)

O poeta é pujante com a árvore significativa de sua sagrada escritura porque recorta angústias nas melodias de papel: “ah dói mesmo é pensar que sou humano// fosse primitivo meu olho de farol/ e meu ouvido cata-ventasse” (165), roendo os enfeites apalavrados na trama mais descosturada de sua poética: “essa América esse Brasil esse triângulo/ rio paranaíba e acordasse o mundo de estilhaço” (197). Tudo é roto, corroído e arde, pode ser estarrecedor, mas paradoxalmente é de uma delicadeza ímpar...aqui, Wilmar é verde, seiva radicada no poeta, original como é a poesia, banhada com a sacralidade de cada verso alimentado deste sangue tão dele que é nosso.

O livro nos ramos do corpo, outra forma de prová-lo:























Referência:
SILVA, Wilmar. Silvaredo. Minas Gerais: Anome Livros, 2010.


Sobre o autor:
WILMAR SILVA, Rio Paranaíba, Minas Gerais, Brasil, 30 de abril de 1965. Livros: Çeiva (Brasil, 1997),Arranjos de Pássaros e Flores, (Brasil, 2002), Cachaprego (Brasil, 2004), Anu (Brasil, 2008), Estilhaços no Lago de Púrpura/ Astillas en el Lago Púrpura (Brasil/ República Dominicana, 2009), Estilhaços no Lago de Púrpura/ Lágrimas en el Lago de Púrpura (Argentina, 2009), Yguarani(Portugal, 2009), Silvaredo (Brasil, 2010). Performances: Afrorimbaudelia, Subida ao Paraíso, O sétimo Corpo, Ee Tu Mao, Eusmaranhados. Videopoema no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, Brasil. Participa das antologias: Antologia da Nova Poesia Brasileira (Brasil), A Poesia Mineira no Século XX (Brasil), Oiro de Minas a nova poesia das Gerais (Portugal), Máscaras de Orfeo (República Dominicana). Organizou as antologias: O achamento de Portugal (Anome Livros, Consulado Portugal Belo Horizonte, Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto Camões), Terças Poéticas: jardins internos (Secretaria Estado Cultura MG, Fundação Clóvis Salgado, Suplemento Literário). Curador do projeto de poesia Terças Poéticas, Secretaria Estado Cultura, MG. Trabalha no projeto de pesquisa de poesiaPortuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética, 1º. ensaio em livro-dvd com 101 (cento e um) poetas de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Brasil (Minas Gerais), publicado em junlho de 2009. Faz o programa de literatura Tropofonia, um laboratório de sons e palavras, pela rádio educativa UFMG (104,5). Blogue: www.cachaprego.blogspot.com.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

a face do fogo NA FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE FRANKFURT, ALEMANHA

evidentemente que estou imensamente feliz por meu livro estar no catálogo 2010 que a editora Annablume apresentou em sua primeira participação na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, na Alemanha.
no entanto, mas que isso, fico feliz com a qualidade da literatura brasileira que está sendo exportada e orgulho-me por fazer parte de uma editora séria e comprometida em selecionar autores importantes ao cenário literário contemporâneo. aí, falo sobre o selo [e] editorial, do qual faço parte, em que se encontram também Marcelo Tápia, Jaa Torrano, Ana Rüsche, Márcio Américo, Ademir Assunção e Antonio V.S. Pietroforte, Tamara Sender, Héctor Hernández Montecinos (poeta chileno), Claudinei Vieira, Donny Correia, Deborah Goldemberg, Claudio Edinger (fotógrafo), Flávia Santos, Markéta Pilátová (escritora checa), Furio Lonza (escritor ítalo-brasileiro), Marília Kubota (escritora e jornalista), Luiz Roberto Guedes, Marcelo Sahea...entre outros queridos.
parabéns a todos desta equipe, da editora Annablume, da sua parceira Demônio Negro e todos os autores, sobretudo, os do selo [e] editorial ....rs

deixo fotos do catálogo.








orelha do FANTASIAS PARA QUANDO VIER A CHUVA

LADO DE FORA

sobre o livro fantasias para quando vier a chuva, de Samantha Abreu


Fantasias para quando vier a chuva é um livro em que a poesia caminha em cima do muro, lutando entre o lado de fora e o lado de dentro. Todo feito de imaginação caprichosa, vestindo disfarces de bom gosto e tons fortes para enfrentar a chuva, que aqui é o desfeito mundo das não-fantasias.

A poesia da Sá recusa-se à quarta-feira de cinzas, fabulando versos que não escorrem, mas sacodem as poeiras da vida. Confetes de encantamento e cores de extasiar enfeitam as páginas do livro que está ambientado no baile de máscaras em que as palavras se trasvestem, envoltas pela serpentina do dizer.

O livro, que está dividido em cinco temas, trabalha o embate entre si e consigo emO Silencioso Recôndito”...é derramamento de uma melancolia que só compreendemos e sentimos em dias chuvosos, como acontece no poema O avesso: “Aqui fora, claridade./ Mas o avesso está coberto de sangue.”.

Os bocados femininos que foram pulverizados pelos dedos de Samantha Abreu encontram-se em “Bonecas Suspensas”, assim assim:E da ponta dos dedos da menina, luzes se decompõem poeticamente no universo.” (Mãos de Medusa). Mas, Pandora é a síntese do que está escondido debaixo dos panos da estreante poeta (nova feiticeira?), que abandona a escuridão: A]breu[.

A londrinense mata o real em “Onírico Enleio”: “Meu mar de mortos: ‘negro purgatório de ensejos aniquilados’” e adorna-se de aspirações em “Irrepresável Vira-Ser”. Mas é emA Rubra Desordem” que o amor é “terra de ninguém” ou desencaixe ou “Uma história sem pé nem cabeça.”. Todos os guarda-chuvas aparecem na passionalidade (in) (a) (p)...algumas gotas penetram o tecido e inundam de lirismo e torpor quem se atrever a reconhecer-se: “– Você consegue ver, ele disse,/ que onde me começo/ te termino/ e que não há mais espaço/ pra ser você em você mesma?”.

A obra que trata de “tudo o que desorganiza” merece ser vista e vestida porque nada do que desfila em seus versos é verdade. Samantha Abreu arquiteta um cantinho cheio de deliciosas mentiras tão insubordinadas que acabam por criar outra realidade mais oportuna, bem mais digerível que a nossa...mais afortunada.

Cair das nuvens aqui é pisar em versos, pegar quimeras e salvar-se das tempestades.

Referência:

ABREU, Samantha. Fantasias para quando vier a chuva. Rio de Janeiro: Multifoco, 2011.

Sobre a autora:


Samantha Abreu, 1980, nasceu e ainda vive em Londrina, Paraná. Estudou Letras na Universidade Estadual de Londrina e cursa Marketing pela Universidade de Uberaba. Já foi publicada em antologias, em sites de literatura como Cronópios, Germina e Escritoras Suicidas, além de revistas literárias como a Coyote, Minguante, Lasanha, entre outras. Tem um projeto de vídeo-poema no Youtube, escreve no blogue http://samanthaabreu.blogspot.com/ desde 2004 e também no blogue da sua série http://mulheressobdescontrole.blogspot.com/. Fantasias para quando vier a chuva é seu livro de poesias, lançado em janeiro 2011, pelo selo Orpheu da editora Multifoco.