12/04/2012

Prosa de palavras, de Karen Debértolis

ARRISCO-ME ARRISCA-TE A VIDA 

Karen Debértolis, em sua “Prosa de Palavras”, coloca-nos em risco logo em seu primeiro texto. 
“Língua” nos joga na cara palavras afiadas deste deserto de asfaltos e ignorâncias em que nos encontramos. Sem meias palavras e nem doces elogios, Karen abre-nos para o livro com palavras diretas como flechas que acertam o alvo, na mosca. 
Nos textos que se seguem, suas palavras nos conduzem a imagens cotidianas, momentos de introspecção, reflexão e refinada lucidez. A dinâmica dos textos produz tensões e suspiros. Respiramos em meio a bombas, desertos áridos e cores foscas com “Pés da Nuvem” e “Amor”, como em um oásis que dá uma trégua e refaz energias para enfrentarmos novamente as areias escaldantes. 
Adiante, Debértolis continua em sua constante necessidade de nos jogar na cara (e não é de hoje e nem apenas neste seu livro que ela teima em falar incômodos) imagens que não existem aparentemente, mas as quais pulsam atrás de nossas retinas. Vislumbra sonhos impregnados, cotidianamente, em cada um de nós, para finalizar com sangue que escorre e grita da seiva da natureza, seiva que antes era refrescante e alimentava a humanidade, mas que agora, vermelha e densa, resseca as nossas almas. 
Karen Debértolis escreve como quem uiva em noites de lua cheia, como que para nos lembrar/avisar da vida, situação-espaço a ser encarada, a cada momento, antes do abismo final. 
Não existe dia possível sem um risco a ser desvendado. 

Fernanda Magalhães 
Artista, performer, fotógrafa, arriscando-se ao escrever para “A Mulher das Palavras” 

11/04/2012

domingos em nós, de Beatriz Bajo

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


prefácio da autora

o livro é uma tentativa de resgatar sóis, reacender estrelas que estão sendo opaciadas no fazimento da geleia real cotidiana. os apagamentos causados pelo sistema educacional brasileiro são um assassinato como qualquer outro e provocam máculas pra toda vida.
por isso, resolvi rasgar verbos nos versos vomitados de ira contra o processo falido da educação mascada tantas vezes em minhas experiências em sala de aula; mas abri os botões dos motivos concernentes aos aprendizados, e bordei no livro as peregrinações do ser por e para dentro de si; um caminho para a ascensão da luz interior através dos encontros com os autodidatas.
também pensando no devir, conceito surgido desde Heráclito - o filósofo discorre que a única coisa imutável na realidade é a mudança, asseverando: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti” - e retomado por Nietzsche em “torna-te quem tu és”, o livro fotografou cenas cujo tema é aprendizado e caminho para o vir a ser.
para se aprender, são necessários infância (mesmo que seja a de dentro) e asas. neste sentido, a palavra costura e cria mundos; logo, criança aqui é seiva aos versos e a chave mestra da vida e de todas as instituições falidas. só o olhar atento às singelezas pode salvar-nos do mundo sombrio.
este trabalho revela imagens a um diário ontológico impreciso, em que não há domingos.

Beatriz Bajo

rio sou francisco, de Chico César

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/



o versador de líquidos

Por Beatriz Bajo*

rio sou francisco foi o livro inspirador à criação da Rubra Cartoneira Editorial, que institui o fenômeno “cartoneirismo” no estado do Paraná. cartonerismo é um termo advindo da iniciativa de algumas editoras utilizarem papelão para a confecção das capas de livros, nascido em consequência da crise argentina de 2002, que culminou com a criação da Eloisa Cartonera e outras editoras, espalhando-se pela América Latina e atingindo alguns países da Europa, como Espanha e Alemanha. rio sou francisco, então, inaugura o selo com outros autores eleitos pelo amor. 
depois de ler Cantáteis: cantos elegíacos de amozade, fiquei assombrada com o talento poético de Chico César. seu primeiro livro merece ser lido e relido, haja vista que o poeta constrói uma rapsódia em cordel com versos enfeitiçados e desdobrados em belíssimas imagens.
sete anos depois, seus poemas tornam-se cordas feitas com tendões inflamados pelo arco tensionado a cada flechacesa disparada nos olhos bem abertos do leitor. lira rica que compõe laços, enrosca-se em nós, acorda cidades e embala casas no colo silencioso de cada poema constelado no “céu de solua”.
Chico fabrica uma poesia atrevida, vigorosa, em que as palavras dançam no ritmo endiabrado de seu resfôlego...mas conhecem o momento de estancar e permanecem no seio encantado da cara literatura.
com a língua rara da poesia, o autor lambe versos que vão aguando os botões floridos das palavras aladas, desabotoando escuridões...e, assim, bebemos a água doce do rio que é o Chico.



A ENERGIA DA HARMONIA

Por Marcelo Ariel**

Poesia e música se entrelaçam e se encontram dentro da energia do silêncio, fonte e destino de toda a música do mundo e força ampliadora dos sentidos de todos os poemas. Chico e Francisco se abraçam dentro dessa energia, talvez a poesia seja uma maneira de converter a energia da memória, matriz de todos os sonhos em música, um tipo de música que é uma fusão de todos os silêncios que atravessam nossas vidas: a interior e a exterior.
Chico e Francisco dialogam dentro desse livro com o silêncio e os silêncios, a música e as músicas, dialogam e se abraçam como um rio abraça o mar, o menino e todo poeta é em essência um menino antigo e o homem, todo músico é no fundo o destino-devir interior do fator humano.
Chico e Francisco aqui se encontram unidos para sempre porque a poesia ao conferir um sentido maior para o silêncio e os silêncios, para a música e as músicas, se confunde com a vida.




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*Beatriz Bajo é poeta, editora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são a face do fogo (SP, 2010), : a palavra é (PR, 2010) e domingos em nós (PR, 2012). Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/).


**Marcelo Ariel é poeta, conselheiro editorial da Rubra Cartoneira, dramaturgo e performer. Seus livros são Me enterrem com a minha Ar-15 (Scherzo-Rajada) (SP, 2007); Tratado dos Anjos Afogados (SP, 2008), O céu no fundo do mar (SP, 2009), Coltrane Blues (SP, 2010), Conversas com Emily Dickinson e outros poemas (RJ, 2010), A morte de Herberto Helder e outros poemas (SP, 2011), A segunda morte de Herberto Helder (PR, 2011) e Cosmogramas (PR, 2012). Mantém o bloguehttp://teatrofantasma.blogspot.com/.


Cosmogramas, de Marcelo Ariel

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


Prefácio do autor

Escrito especialmente para a RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL de Londrina, uma ideia-ressonância que foi materializada por Beatriz e Jesus Bajo. Este livro se divide em duas partes, na primeira chamada Cosmogramas estão os fragmentos de coisas que escrevi dentro do mangue de Cubatão, uma série profundamente inspirada na audição do disco COISAS de Moacir Santos, o que o Mestre Moacir chama de Coisas eu chamo de Cosmogramas, trata-se da mesma energia espiritual da natureza, que ele traduzia como música e eu ambiciosamente traduzo como textos. Não me interessa mais escrever poesia, é um campo infestado de egomaníacos sutis, me identifico profundamente com o que o grande Nicanor Parra quer dizer quando chama a si mesmo de ‘antipoeta’, escrevo uma coisa híbrida entre o poema e a meditação koan do Zen. Me interessa mais o koan do que o poema. Ainda não desenvolvi a elegância suprema de não assinar mais meus textos, a própria ideia de autoria é ridícula como os conceitos de pátria, fronteiras, nomes e etc. Sou como você, um covarde, e não possuo a coragem extraordinária de viver sem um nome. Me tornar eu mesmo uma Coisa, um Cosmograma vivo.

Marcelo Ariel







Não tenho pena do poema, de Reynaldo Bessa

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


a melhor forma de matar o tempo

Por Beatriz Bajo*

do meio da fila indiana formada pelas reticências que visitam as línguas, irrompem versos que rugem. incisivos como uma fera faminta atrás de sua presa, alvoroçando a floresta-linguagem com suas patas-palavras afiadas na jugular do poema.
masculina. aguda. atrevida, a voz não tem pena do poema porque o trata também como impiedoso. e ímpio para ela pode ser o trabalho rascante do artista (mais invisível do que seu olhar oblíquo):

volto (volto?) sob o pó do cansaço, encharcado
de noites e
com os dedos trêmulos ainda tentando segurar
a alça de um ataúde
que há pouco desapareceu no escuro que nunca
morre. (44)

, a vida:

dentro
da velha companheira
caneta bic,
uma dor líquida
cor azul-infância. (11)

ou a fêmea

sinto por você o que o amor ainda desconhece (36)

, numa luta corporal em que cada um perde um pouco de si, sangue derramado sobre o tempo a galope que escoiceia os anos descompassados como uma espada que atravessa o pescoço de uma criança desavisada dos prazos de validade.
Reynaldo Bessa, depois de Outros Barulhos - Poemas e Algarobas Urbanas, reaparece como um serial killer, sujo da graxa da vida, manchado de humanidade, esbaforido por nadar contra a maré dos instantes...munido com verbos apimentados.
não há piedade na poesia besseana porque seu maior inimigo está no espelho e tem a medida exata de sua força, a estatura de todos os seus medos e usa da mesma faca tantas vezes amolada no porão de si - arma branquíssima aos silêncios desafiadores.
o poeta atira versos, atiça a fogueira dos encontros, levanta as saias das meninas que dormem nas suas mulheres, sacode a rua como um moleque deslumbrado com sóis escondidos e assim engatilha um livro de alto calibre:

apenas quero ser arrebatado
como o serial killer que no fundo mata
para, enfim! ser preso (47)

enfim! a presa é o leitor que desenvolve depois da leitura de Não tenho pena do poema a Síndrome de Estocolmo, em que a ameaça transforma-se em prazeroso sequestro do tempo morto para o êxtase renascido por dentro da literatura, espelho do mundo que não morre mais.



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*Beatriz Bajo é poeta, editora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são a face do fogo (SP, 2010), : a palavra é (PR, 2010) e domingos em nós (PR, 2012). Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/).

14/02/2012

O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene



Heidegger deixou os rastros de que “Jamais e em nenhuma língua o pronunciado é o dito.”
(HEIDEGGER, 1969, p. 44).


O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene, trata exatamente desse artifício de amontoar palavras para o estratagema do que mais se aproximaria da verdade: “Só alcançamos as palavras. E as palavras são sombras. A verdade é uma floresta nebulosa, porque a verdade não é a verdade, são palavras. Assim, reinventar o mundo, meu caro poeta, é ressignificar as palavras.” (p.9). O livro passeia pela mata espessa, entre as emboscadas, com a opacidade de quem cose para dentro, interceptando o que é brilhante.
Em súplica de franca natureza, o verso responde que “O mundo inteiro estremece no punho” (p.10) e denuncia o poeta como o responsável pelas mazelas de tudo, haja vista que “O mundo inteiro é culpa de quem imagina/ não de quem vive” (p.11). A trama dessa obra está aquém e abaixo da forma e das fôrmas, no cultivo em perfil denso de nascimentos. O trabalho dO livro das sombras tem a gravidade e gravidez dos signos em inauguração.


Gota
abre-se
silêncio 
interpelado chão 
avança 
furiosa 
penetrando a terra 
vai rasgando o chão [...] 


A vida fervilha em seiva. Uma flor borbulha pétalas. Ouve a respiração ofegante das folhas donde soa em ebulição o silêncio. - Um cardume de mãos Invisíveis se move dia e noite semeando suas sementes. (p.16). Assim Léo arquiteta um livro-casa que abriga as correntes do inconsciente pessoal, das profundidades que reinventam o mundo, onde se encontram as ligações que fazem parte das raízes de tudo o que se é e do que se manifesta. 
Entretanto, seu trajeto é reverso; o caminho é todo árvore em sussurro. Este “é o destino dos homens// (Raízes nos habitam)” (p.18). Mais que a coisa, busca-se sua sombra. No poema “O caminho das árvores”, percebe-se a bela metáfora da mulher-árvore. Toda feminilidade é alcançada em versos de uma sensualidade rica e apurada. Avança lenta e cautelosa sob o peso de seus galhos e seus ramos vestida de flores e sua pele de folhas. Avança pela intimidade dos caminhos. [...]Ela percebe? Percebe! Percebe! É bonita demais pra não perceber insinuações. Para mulheres assim, o mundo é inteiro uma insinuação. (pp.18-9). 
Assim que a trilha à leitura dO livro das sombras vai sendo inventada em plena desarmonia da natureza pa[lavrada]: “a mulher é uma árvore que renasce.// A verdade não é o que existe,/ é o que a gente deixa existir.” (p.19). Na mesma medida, a concepção das novas verdades e dos significados estão em gestação, arvoradas de sentidos a serem inaugurados. Fetos afetados no útero do universo. As mulheres carregam sementes no ventre. Vem das suas certezas a altivez com que me aplaca o juízo. E da alma inquebrantável de verdades a completude com que me atrai os sentidos. Ela traz a segurança das mulheres grávidas das mulheres prenhes da verdade. A verdade o estágio mais alto de toda beleza.(p.19). As raízes de uma árvore não são fáceis de perceber; contudo, são imperativas à sobrevivência da mesma. 
Também essa é a proposta dos pequenos silêncios de Léo Mackellene, em sua obra que prepara um terreno abrigado da palavra. Em “O jardim das horas”, Dois deuses acima de nós disputam o controle de nossos atos o destino e o acaso. (p.29) o que se percebe é a ida ao encontro do silêncio ao desvendamento do que ainda não foi re-velado. O oculto das coisas está nessa sacralidade silenciosa que é a verdade. A des-coberta acontece em sigilo; é na refração que se pode alcançar. 
Ler... É uma árvore que desperta, respira profundamente e se ergue. Deixa que a palavra te leve, que ela é um barco que navega sem leme. (p.32). O silêncio esculpe a palavra; o auge do silêncio é a transcendência do tempo: “Pois entra e senta/ que o mundo é secular e ele pesa./ Diz como quem tem fome./ Pára...” (p.33). Fabulando as significações é que as palavras excursionam “O jardim silenciado”, atuando em processo metafísico, com a ciência de serem reflexo. Eu sou o último galho o que sobrou... e aqui estou sob a sombra dessas árvores e dessas plantas entre as dobras dessas páginas brancas, vivendo secretamente em ti. (p.46). Aqui se dá o esfacelamento do ser, enfraquecido de saber-se perecível. Vestígio humilde de certificar-se abaixo da sombra das palavras que não alcançam a verdade, mas, incansavelmente, procuram-na: “Aqui,/ um segundo/ é a eternidade doendo.” (p.47). 
O poema que encerra O livro das sombras é “O quintal dos dias”, o terreno atrás da casa-livro, em que se operam as oportunidades da linguagem. Léo novamente transubstancia o indivíduo, agora fundindo à árvore a sabedoria humana. Gigantes sábios e benevolentes retiraram-se dos campos - onde havia gente - E embrenharam-se na floresta, Transformados também em árvores. (p.50). Descarnando-se, ou seja, fugindo da solidez do que já está posto, a obra sugere uma reflexão, uma compreensão que se dá além das palavras, em sua virtualidade: “O fruto é uma revolução silenciosa.” (p.50). 
Léo Mackellene empenhou-se com uma destreza assombrosa sobre o que se passa através dO livro das sombras, em confecção íntima e precisa de uma textura sobre a matriz da palavra – o silêncio –, alcançando o que se pretendeu ou se pressentiu construir no enovelado e nodoso versejar grávido de sentidos.



referência:
MACKELLENE, Léo. O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios. Fortaleza: Mangues & Letras, 2006.




sobre o autor: 
Léo Mackellene nasceu em Fortaleza no Marco Zero dos anos 80. Tocou em bandas de rock. Publicou poemas e contos. Saiu de casa aos 11 anos. Morou em cidades diferentes. Amou, se embriagou, chorou. Participou do movimento estudantil e hoje vive como mestre em literatura (UnB) e leciona na Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, na terra de Domingos Olímpio, Sobral. Mantém o blogue http://olivrodosmaispequenossilencios.blogspot.com/


30/10/2011

Cantáteis, de Chico César

Cantáteis - cantos elegíacos de amozade
: de entontecer
a capa é escadalosamente linda, com xilogravuras de João Sánchez (editor e impressor do Estúdio Baren) que dão o tom da literatura de cordel no mais alto estilo e vigor. o livro é surpreendente do início ao fim. o eu-lírico apresenta-se cordialmente, vindo com a primitividade poética característica das forças literária e mitológica que edificam a história humana e como num jogo mesmo de sedução, ele surge:

1
seu poeta preferido
bem antes de ser ferido
já era ferido antes
não visitou as bacantes
as nereidas e as ninfas
quis beber de sua linfa
esperou e não morreu
esse poeta sou eu
de lira desgovernada
deliro musa amada
órfão bisneto de orfeu

as estrofes são de 11 versos emparelhados e seguidos da intercalação ao final - a a b b c c d d e e d - como fósforos que vão se acendendo um no outro, para culminar na fogueira deliciosa da poesia dançarina, com pés ligeiros deslizados entre métricas rimas e neologismos de Chico César, que além de ser um "cantautor" brasileiro de repercussão internacional com hábil talento, sabe trazer a música pra dentro das páginas com extremo polimento, esmerilhando ideias, sensações, até o esmerado panorama de imagens ritmadas e encharcadas de significados.
28
nem parnaso nem concreto
o amor analfabeto
não lê poemas de amor
tanto faz lápis de cor
ou computador que escreva
a linguagem mais longeva
que o amor reconhece
é o próprio amor, sua prece
é a pane do motor
é o silêncio do tambor
é a bomba na quermesse

numa despedida dentro da manhã que andava de carro até o aeroporto, Chico me contava de um livro que havia escrito em 1993 para conquistar uma mulher pela qual fora apaixonado. ele o fez manuscrito num caderninho (da primeira a última folha) e entregou-lhe como presente de natal.
achei tão comovente a estratégia e fiquei curiosa pra lê-lo. não conhecia detalhes do mesmo, a não ser uns versos recitados por ele que ficaram guardados com a emoção do show em que nos conhecemos, quando entreguei ao Chico meus livros.
nesta época de sua vida, CC morava em sampa. talvez isso tenha contribuído para que sua obra se tornasse uma rapsódia, porque é uma canção costurada de relatos e retratos da cidade tão exótica e camaleônica, engravidada de cores e gentes lambendo a mesma língua. Chico e seu eu-lírico de Cantáteis passeiam pelas ruas macunaímas seguindo o molejo da vida anti-heróica paulistana, mas com o mais nobre dos argumentos: o amor.

55
sei que no tatuapé
ninguém lê lou salomé
nitzsche rilke nem paul rée
ninguém não: lá tem você
e deve ter mais uns poucos
toda terra tem seus loucos
profetas visionários
tem quem ganha altos salários
e escondido come merda
e o lindo bebê que herda
sangue podre funcionário

e aí, o amor que Chico sentia no peito não coube mais, nem serviu a apenas uma mulher, seu sentimento transbordou pela cidade; assim como ela faz insistentemente com a garoa que alcança, mesmo que mansamente, todos os espaços, umedecendo praças, calçadas, os filetes descobertos dos comércios. também o poeta se infiltra no sentimento do povo daquele tempo e lugar, na angústia daquela gente sendo esmagada pelo concreto das rotinas e precisando tanto de serem salvas pela poesia insandecida dos peitos abertos aos encontros afetivos e efetivos.

78
morte e vida severina
pro filho de etelvina
circo césar circunspecto
claríssima lispector
luz na alma das mulheres
sou cantor não sou alferes
confidente esquartejado
mas na praça do mercado
minha língua tagarela
canta ainda o nome dela
doce morango mofado

Chico é um poeta. nunca tive dúvida. mas seu livro ratifica o mel da linguagem aliado a um requinte de passeios literários, folclóricos, populares. não há ingenuidade nem na forma nem no conteúdo de seus versos. tudo é poesia comovendo as páginas, como vida nascendo das palavras atrevendo-se aos desdobramentos imagéticos.
Obviamente, o poeta conquistou o amor da musa evocada em todo o livro. o da mulher, o da cidade e o dos leitores que se dispuseram a serem seguidos por sua mão enfeitiçada de poesia. se colocar a mão na boca, aí espanta pássaros da alma, enroscados nas cordas vocais já tão caras a tantos admiradores de seu talento musical.
REFERÊNCIA:
CÉSAR, Chico. Cantáteis: cantos elegíacos de amozade. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

DADOS DO AUTOR: Chico César nasceu em Catolé do Rocha, na Paraíba, em 1964. Aos 16 anos foi para João Pessoa, onde se formou em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, enquanto participava do grupo Jaguaribe Carne, que fazia poesia de vanguarda. Aos 21, mudou-se para São Paulo. Trabalhando como jornalista e revisor de textos, aperfeiçoou-se no violão, multiplicou as composições e formou um público. Hoje tem uma carreira artística de repercussão internacional. A maioria de suas canções são poesias de alto poder de encanto linguístico.
Em 1991, foi convidado para fazer uma turnê pela Alemanha e passou a dedicar-se somente à música. Formou a banda Cuscuz Clã e passou a apresentar-se na casa noturna paulistana Blen Blen Club. Em 1995 lançou seu primeiro disco Aos Vivos e seu primeiro livro Cantáteis. Tomou posse na presidência da Fundação Cultural de João Pessoa (FUNJOPE) e maio de 2009. Desde janeiro de 2010 é Secretário de Cultura do Estado da Paraíba.
FOTO: Ana Oliveira