Beatriz Bajo (16/12/2007)
Se um romance (um poema, um filme) é um conteúdo colocado numa forma, ele é apenas uma mensagem ideológica disfarçada: seu caráter estético desmorona. A leitura ideológica de um romance (e é ela que nos é proposta sem cessar e em toda parte) é tão simplificadora, embrutecedora e rebaixadora quanto a redução ideológica da própria realidade. (Milan Kundera).

Em alternâncias de gravitações e acelerações de um corpo sobre o outro, Tomas, Teresa, Sabina e Franz transitam por forças e posições oscilantes. Ora, Tomas é enredado por situações entre peso e leveza, o amor e o desejo de estar só, impulsos que agem sobre ele concomitantemente. Assim como a trama de Tereza costura-se com as linhas tênues entre corpo e alma. Ora, a narrativa é atraída pela fragilidade da representação lingüística, flagrada por meio da mudança de foco entre Sabina e Franz.
O eterno retorno é uma idéia misteriosa, e Nietzsche, com essa idéia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato? (p.9)
No entanto, a teoria não se resume a isso, haja vista que a noção de tempo, segundo Nietzsche não é cíclica, mas complementar. Assim sendo, não há oposições, mas multiplicidades dentro de uma mesma realidade. Há complementaridades que vão se alternando pela eternidade. Daí o retorno.
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. (p.11)
Assim, Kundera apresenta Tomas (um atraente e bem-sucedido médico), que hesita entre o peso de Tereza ter-lhe entregue sua vida e o medo do envolvimento, seu filho e os embaraços amorosos e a leveza, que inicialmente se apresenta como o desejo de ficar só e manter casos esparsos, amizades eróticas. A maior delas era com Sabina, que será apresentada mais à frente. Tomas e Tereza casam-se e adquirem um cachorro: "Tomas compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora." (p.17)
Tomas sente compaixão por Tereza, sentimento que se distancia do amor, por significar sofrimento, piedade. Tereza sente muito ciúme pela infidelidade do marido e sai de casa. Inicialmente, Tomas reage como se a separação representasse a leveza, no entanto, depois de alguns dias, a sensação angustia-lhe: “No sábado e no domingo Tomas tinha sentido a doce leveza do ser chegar a ele, vinda da profundeza do futuro. Na segunda-feira, sentiu-se aniquilado por um peso que jamais conhecera.” (p.37)
Entre essas considerações sobre leveza e peso, sustentadas por Parmênides — filósofo pré-socrático que se debruçava sobre as dualidades ontológicas do Ser, em que o peso é uma falta de leveza — aparecem os questionamentos existenciais que dizem respeito a comprometimento e liberdade e uma ressalva interessante: “Ao contrário de Parmênides, Beethoven considerava o peso como algo positivo. [...] o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.” (p.38-9)
A metáfora representada por Tereza está nas questões alma e corpo, personagem que encarna as inquietações acerca da fronteira tênue entre o espírito e a matéria: “O corpo era uma gaiola e dentro dela, dissimulada, estava uma coisa qualquer que olhava, escutava, tinha medo, pensava e espantava-se; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.” (p.46)
...o livro era o sinal de reconhecimento de uma fraternidade secreta. Contra o mundo de grosseria que a cercava, não tinha efetivamente senão uma arma: os livros que pedia emprestados na biblioteca municipal; sobretudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles não só lhe ofereciam a possibilidade de uma evasão imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhuma satisfação, mas tinham também para ela um significado como objetos: gostava de passear na rua com um livro debaixo do braço. Eram para ela aquilo que uma elegante bengala era para um dândi do século passado. Eles a distinguiam dos outros. (p.53)
A história que inicialmente estava sendo contada por Tomas ganha nova perspectiva com Tereza. Depois do casamento, a esposa passa a reencontrar-se com o mesmo dilema enfrentado na época em que vivia com a família. Por conta da infidelidade do marido, Tereza mergulha num ciúme que a impele à imersão de sonhos/pesadelos através dos quais, em alguma medida, ela livra-se da opressão de sua alma já que se afasta do corpo.
Nesses sonhos, a esposa intui que seu marido a iguala às outras mulheres. Tereza e todas as outras fêmeas possuem corpos idênticos. Essas visões quiméricas vêm para ratificar o que sente a moça dentro dessa relação: um amor infeliz. Assim, fadada estará como a mãe e no que concerne à sua sensação de não caber neste espaço, de não ser única.
Nesse contexto é que Tereza inicia um mecanismo de desmoronamento, passando a sofrer com as vertigens como um reflexo das quedas em busca de que alguém (Tomas, no caso) a levante:
O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados. (p.65)
Platão, em sua filosofia, pensa sobre alma e corpo como contrapontos em que à alma cabe o mundo inteligível e ao corpo, o sensível. Esse sentido remonta que a sabedoria vem daquela que está aprisionada pelo material. No entanto, por conta disso, o corpo contrai alguma identidade, notadamente, no que diz respeito ao contexto de crise subjetiva que conjetura inclusive a corporeidade do indivíduo.
Tereza discute exatamente esses conceitos, a dificuldade de identificar-se ao mesmo tempo em que seu corpo adquire as experiências advindas de uma posição específica sócio-cultural e, assim, vai sendo construído. Juntamente com os “cenários” pintados por Sabina, essas oposições trocam de lugar e se amoldam aos discursos dessa obra: “Na frente ficava a mentira inteligível, por trás a verdade incompreensível.” (p.69)
Sabina é uma das amigas com quem Tomas mantém relações eróticas, uma pintora formada na faculdade de Belas-Artes. A artista está sempre fabricando em um mundo, o duplo. Vivendo de sua fenda, nutrindo a informalidade acordada com Tomas em seu caso, sem que isso demonstre qualquer tipo de insegurança a ambos.
O oposto passa-se em relação a Franz, um homem casado e infiel. Sua fragilidade é a insegurança. Franz entregara-se à tara por Sabina, mas vive receoso e sente-se culpado pela traição: “Certamente teria preferido dormir só, mas o leito comum permanecia o símbolo do casamento, e os símbolos, sabemos, são intocáveis.” (p.89)
Nesse paradoxo de valores encontram-se as incompreensões entre os amantes que não conseguem atingir a mesma intimidade que Sabina possuía com Tomas, com quem mantinha jogos eróticos, utilizando o chapéu-coco como um objeto que simbolizava sua originalidade (aqui Kundera cita Heráclito sobre a inovação do instante – “Ninguém coloca os pés no rio mais de uma vez. É sempre um novo rio.”):
O chapéu-coco era o leito de um rio e Sabina nele via, a cada vez, um novo rio correndo, um rio semântico: o mesmo objeto suscitava a cada vez um outro significado, mas esse significado repercutia (como num eco, num cortejo de ecos) todos os significados anteriores. O que estava sendo vivido ressoava com uma harmonia vez mais rica. (p.94)
Essa dissonância entre os dois — Sabina e Franz — acaba por levá-los a uma distância quando Franz separa-se para assumir o caso com a amante. Longe de querer algum vínculo, Sabina alimenta-se da sedução da vida e, para ela, essa sedução advinha da traição:
A artista estava sempre às voltas com o seu drama de leveza: “Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser." (p.143). Reprimida que estivera pelo vazio com que sentiu até receber a carta do filho de Tomas e atentou para o peso em meio a pedras e ossos que atravancaram a compreensão entre ela e Franz.
Uma outra admirável imagem que Kundera imprime em sua obra é a das fotografias retiradas por Tereza das mulheres munidas com guarda-chuvas como que simulando o dia da invasão soviética na Tchecoslováquia, em que moças carregavam a bandeira nacional. Esse é um dos muitos fragmentos em que o autor menciona a história que está sendo contada juntamente com as de Tomas, Tereza, Sabina e Franz, a invasão russa à Tchecoslováquia e a atmosfera da crise política flagrada na cidade de Praga e Viena, lá pelo ano de 1968, apesar de “A insustentável leveza do ser” ser publicado em 1984 (romance adaptado para o cinema por Philip Kaufman com o título The Unbearable Lightness of Being).
Voltando aos sonhos de Tereza, o Monte Petrin causa grande impacto porque distorce os limites entre a realidade e a imaginação. Além disso, nesses momentos, torna-se evidente o papel cerceador dos soldados (Primavera de Praga) em justaposição ao sentimento da personagem e em analogia ao seu papel na relação com Tomas.
Quando essa sensação se apresenta incontrolável, Tereza encontra-se com um gentil cavalheiro que a defende em uma das muitas situações embaraçosas que ela passa no bar em que trabalha e, a partir daí, consegue afinar-se com a descoberta da unicidade de seu corpo:
Depois, ele lhe tirou a calcinha; agora estava completamente nua. A alma via o corpo nu entre os braços do desconhecido, e esse espetáculo lhe parecia inacreditável, era como se estivesse vendo de perto o planeta Marte. Iluminado pelo inverossímil, pela primeira vez seu corpo deixava de ser banal; pela primeira vez ela o olhava com uma espécie de encantamento; tudo que o fazia singular e o tornava único e inimitável estava projetado em primeiro plano. (pp.157-8)

Kundera cita o antagonismo entre a merda e Deus: “Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus — e então Deus tem intestinos —, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.” (p.248). Também, há incompatibilidade quanto ao sexo e a excitação, o que se encaminha a uma convenção de mascaramento a tudo o que não deve ser mostrado, ou seja, finge-se que não existe a merda: “Segue-se que o acordo categórico com o ser tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético se chama kitsch.” (p.250)
Alude-se, então, a uma ideologia que simula o apagamento de tudo o que não se pode admitir visualmente. Conseqüentemente, o que se mostra são planejamentos de aparente fraternidade entre os indivíduos, estratégias concebidas, sobretudo entre os políticos (comunismo). O que entra em embate com essa “ditadura do coração” é combatido entre os discursos: individualismo, ceticismo e ironia (o que não significa que a prática seja diferente). Essa seria a temática de “A Grande Marcha” para frente, que se utiliza de muitas imagens e vocabulário apurado.
Assim, Kundera novamente fabula o que seria “A Grande Marcha” e esclarece os medos de suas personagens: Tereza teme a igualdade de corpos: “O sonho de Tereza revela a verdadeira função do kitsch: o kitsch é um biombo que dissimula a morte” (p.256), enquanto Sabina abomina o kitsch soviético: “É assim que Sabina explicou a Tereza o significado de seus quadros: na frente, a mentira inteligível; por detrás, a verdade imcompreensível.” (Idem)
Uma outra questão bastante interessante é quando Kundera confere a última parte de seu livro para contar a trajetória de Karenin (o cão que foi presente de Tomas a Tereza e recebeu o nome em homenagem ao livro que esta estava lendo de Tostoi) e registra a diferença entre tempos. O tempo do homem é linear e o do cão, por exemplo, é circular.
Segundo o autor, o aspecto cíclico do tempo, afina-se à felicidade. Assim, a eleição entre peso ou leveza, entre obrigações e responsabilidades ou liberdade é que podem gerar arrependimentos ou frustrações. Ainda Milan salienta que o eterno retorno corresponde a circunstâncias existenciais que se repetem porque há possibilidades limitadas diante do tempo, digamos eterno.
O fato do tempo do homem ser linear acaba por apagar a significância de uma vida, de uma história. A ética atrelada ao posicionamento de Kundera é a de que se houvesse uma educação voltada ao pensamento cíclico, a vida não seria tão vã, haja vista que existe, com essa convocação, a possibilidade de maior gravidade conferida à própria existência, a sugestão de que a felicidade adeqüa-se sobremaneira a esta mentalidade, já que “a felicidade é o desejo da repetição”. Assim, o autor circunscreve sobre o amor fati nietzscheano entre os acasos e os retornos a uma belíssima obra que incita ao destronamento dos conceitos cristalizados e das verdades absolutas.
Dados do autor:
Milan Kundera nasceu em Brno na Checoslováquia, em 1929. Instruiu-se em musicologia. Estudou literatura na Faculdade de Artes da Universidade Charles e logo transcorreu à Academia de filmes. Não terminou os estudos por motivos políticos, além de ser banido do Partido Comunista. Tendo seus livros primeiros removidos do mercado checo, estes herdaram da França as primeiras edições, em face de sua mudança para Paris em 1975.
Referência bibliográfica:
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1983.