domingo, 30 de outubro de 2011

Cantáteis, de Chico César

Cantáteis - cantos elegíacos de amozade
: de entontecer
a capa é escadalosamente linda, com xilogravuras de João Sánchez (editor e impressor do Estúdio Baren) que dão o tom da literatura de cordel no mais alto estilo e vigor. o livro é surpreendente do início ao fim. o eu-lírico apresenta-se cordialmente, vindo com a primitividade poética característica das forças literária e mitológica que edificam a história humana e como num jogo mesmo de sedução, ele surge:

1
seu poeta preferido
bem antes de ser ferido
já era ferido antes
não visitou as bacantes
as nereidas e as ninfas
quis beber de sua linfa
esperou e não morreu
esse poeta sou eu
de lira desgovernada
deliro musa amada
órfão bisneto de orfeu

as estrofes são de 11 versos emparelhados e seguidos da intercalação ao final - a a b b c c d d e e d - como fósforos que vão se acendendo um no outro, para culminar na fogueira deliciosa da poesia dançarina, com pés ligeiros deslizados entre métricas rimas e neologismos de Chico César, que além de ser um "cantautor" brasileiro de repercussão internacional com hábil talento, sabe trazer a música pra dentro das páginas com extremo polimento, esmerilhando ideias, sensações, até o esmerado panorama de imagens ritmadas e encharcadas de significados.
28
nem parnaso nem concreto
o amor analfabeto
não lê poemas de amor
tanto faz lápis de cor
ou computador que escreva
a linguagem mais longeva
que o amor reconhece
é o próprio amor, sua prece
é a pane do motor
é o silêncio do tambor
é a bomba na quermesse

numa despedida dentro da manhã que andava de carro até o aeroporto, Chico me contava de um livro que havia escrito em 1993 para conquistar uma mulher pela qual fora apaixonado. ele o fez manuscrito num caderninho (da primeira a última folha) e entregou-lhe como presente de natal.
achei tão comovente a estratégia e fiquei curiosa pra lê-lo. não conhecia detalhes do mesmo, a não ser uns versos recitados por ele que ficaram guardados com a emoção do show em que nos conhecemos, quando entreguei ao Chico meus livros.
nesta época de sua vida, CC morava em sampa. talvez isso tenha contribuído para que sua obra se tornasse uma rapsódia, porque é uma canção costurada de relatos e retratos da cidade tão exótica e camaleônica, engravidada de cores e gentes lambendo a mesma língua. Chico e seu eu-lírico de Cantáteis passeiam pelas ruas macunaímas seguindo o molejo da vida anti-heróica paulistana, mas com o mais nobre dos argumentos: o amor.

55
sei que no tatuapé
ninguém lê lou salomé
nitzsche rilke nem paul rée
ninguém não: lá tem você
e deve ter mais uns poucos
toda terra tem seus loucos
profetas visionários
tem quem ganha altos salários
e escondido come merda
e o lindo bebê que herda
sangue podre funcionário

e aí, o amor que Chico sentia no peito não coube mais, nem serviu a apenas uma mulher, seu sentimento transbordou pela cidade; assim como ela faz insistentemente com a garoa que alcança, mesmo que mansamente, todos os espaços, umedecendo praças, calçadas, os filetes descobertos dos comércios. também o poeta se infiltra no sentimento do povo daquele tempo e lugar, na angústia daquela gente sendo esmagada pelo concreto das rotinas e precisando tanto de serem salvas pela poesia insandecida dos peitos abertos aos encontros afetivos e efetivos.

78
morte e vida severina
pro filho de etelvina
circo césar circunspecto
claríssima lispector
luz na alma das mulheres
sou cantor não sou alferes
confidente esquartejado
mas na praça do mercado
minha língua tagarela
canta ainda o nome dela
doce morango mofado

Chico é um poeta. nunca tive dúvida. mas seu livro ratifica o mel da linguagem aliado a um requinte de passeios literários, folclóricos, populares. não há ingenuidade nem na forma nem no conteúdo de seus versos. tudo é poesia comovendo as páginas, como vida nascendo das palavras atrevendo-se aos desdobramentos imagéticos.
Obviamente, o poeta conquistou o amor da musa evocada em todo o livro. o da mulher, o da cidade e o dos leitores que se dispuseram a serem seguidos por sua mão enfeitiçada de poesia. se colocar a mão na boca, aí espanta pássaros da alma, enroscados nas cordas vocais já tão caras a tantos admiradores de seu talento musical.
REFERÊNCIA:
CÉSAR, Chico. Cantáteis: cantos elegíacos de amozade. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

DADOS DO AUTOR: Chico César nasceu em Catolé do Rocha, na Paraíba, em 1964. Aos 16 anos foi para João Pessoa, onde se formou em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, enquanto participava do grupo Jaguaribe Carne, que fazia poesia de vanguarda. Aos 21, mudou-se para São Paulo. Trabalhando como jornalista e revisor de textos, aperfeiçoou-se no violão, multiplicou as composições e formou um público. Hoje tem uma carreira artística de repercussão internacional. A maioria de suas canções são poesias de alto poder de encanto linguístico.
Em 1991, foi convidado para fazer uma turnê pela Alemanha e passou a dedicar-se somente à música. Formou a banda Cuscuz Clã e passou a apresentar-se na casa noturna paulistana Blen Blen Club. Em 1995 lançou seu primeiro disco Aos Vivos e seu primeiro livro Cantáteis. Tomou posse na presidência da Fundação Cultural de João Pessoa (FUNJOPE) e maio de 2009. Desde janeiro de 2010 é Secretário de Cultura do Estado da Paraíba.
FOTO: Ana Oliveira

6 comentários:

  1. Adorei seu texto! É crítica que se faz poesia. Bjos.

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  2. obrigada, Marciano!!!
    o livro é inspirador...acredite! ;)
    beijobeijo

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  3. excelente livro e seu texto também é ricamente informativo,
    mexeu com minha metafísica.

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  4. puxa, Anderson!!!
    muitíssimo obrigada! ;)

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  5. Um lindo texto cheio de poesia para um grande poema e poeta. Parabéns.

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  6. Além de linda,adora poesia me passa o seu zap ?Adoraria conhecer mais sobre vc..

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