quarta-feira, 25 de março de 2009

sobre Dulcinéia Catadora e últimos lançamentos


CATANDO LIVROS, RECICLANDO CULTURA

Beatriz Bajo

Uma graduada em Letras que sempre foi apaixonada por pintura só podia dar nisso. Dulcinéia-Lúcia ou Lúcia-Dulcinéia começou a interessar-se por sucata, trabalhando com ferro e resina, e passou a aproximar-se dos catadores. Papelão + catadores + Lúcia Rosa = Dulcinéia Catadora.
O projeto recebe as mãos de crianças que confeccionam o papel de celulose reciclada. Seus pais vendem o papelão a um real o quilo. Escritores, artistas e catadores comprometem-se com a ideia auto-sustentável de produzirem livros.
O projeto visa à divulgação de autores latino-americanos e à valorização dos catadores, como mote o incentivo à criação e à cultura. Atua desde 2007, em parceria com o Eloísa Cartonera (Argentina), este criado em 2003 pelo artista plástico Javier Barilaro e o escritor Washington Cucurto, em Buenos Aires, com mais de 100 títulos de autores latino-americanos.
Os últimos lançamentos ocorreram no dia 05/03/2009, na Mercearia São Pedro/ SP e os livros foram nada menos que Nego Fogo, de Andréa Del Fuego e Respiração do Labirinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro.

Del Fuego possui um livro de contos esgotado Nego Tudo, por isso, Nego Fogo reascende as chamas das palavras contadas por ela:

Há uma coisa que dissolve ossos, e há outra que os constrói. Foi por isso que te dissolvi, pra você voltar. Voltar com fêmur de macho, calcanhar sem a ferida. Foi por isso que te construí, pra você ir embora. Ir com o joelho rompido e o pulso aberto. Há resíduos da operação, o cálcio do vai e vem, e dele fiz tua tíbia, que é minha, minha flauta.

E Respiração do Labirinto é uma edição bilíngue, um livro inédito de Paspasquiaro com tradução de Beatriz Bajo, como o poema “Flashes de vida laser” (Destellos de vida láser):

Me esvazio totalmente
No basculante das palavras
Beijo o véu da destruição
-Arco-íris negro das têmporas-
Estou & não estou
Ejaculando / como sempre / luz
O pó é também
Espírito & folhagem de meu corpo
A agulha fosca do viver
Rompe a cratera pueril de minhas ânsias

Me vacío totalmente
En el carro de volteo de las palabras
Beso el filo del derrumbe
-Arcoíris negro de las sienes-
Estoy & no estoy
Eyaculando / como siempre / luz
El polvo es también
Espíritu & follaje de mi cuerpo
La aguja hosca del vivir
Rompe el cráter aniñado de mis ansias


Vale à pena conferir mais uma parceria de Dulcinéia com a Cartonera e, sobretudo, prestigiar essa iniciativa, tão ousada e admirável, e fomento de projetos sócio-culturais como esses.


Fotos do lançamento, Mercearia São Pedro/SP:

Lúcia Dulcinéia e Beatriz Bajo (eu...rs)

que encontro bonito: Andréa Del Fuego, Marcelino Freire e Beatriz Bajo

nós e os flashes

os livros ficaram estupendos!



ENTREVISTA COM ANDRÉA DEL FUEGO

Beatriz Bajo


FOTO: Edson Kumasaka

Andréa del Fuego é uma moça que guarda a incandescência e a docilidade no trato com palavras. Nasceu em São Paulo, em 1975, e tem nos prestigiado com a trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu (projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo), um romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal e um volume de crônicas Quase caio. Além disso, ilumina as antologias Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, Capitu mandou flores, entre outras. Lançou nesse mês Nego fogo pela Dulcinéia Catadora e mantém o blogue http://www.delfuego.zip.net/

A gente faz perguntas e ela responde num riscar de fósforo, com a mesma gentileza e leveza de seus cachinhos de idéia. Vale à pena conferir!

AP: Por que negando pela segunda vez? O fato de o livro de contos Nego tudo ter sido esgotado foi crucial à escolha do título: Nego fogo? Sua escrita é a da negação, como os negativos de fotos? Haja vista que os outros livros também possuem essa conotação Minto enquanto posso e Engano seu.

Andréa del Fuego: Sim, um título saiu do outro já que é quase o mesmo livro. Minha escrita não tem um projeto por trás que a oriente, mas tem uma constância, uma vontade de seguir, melhorar, avançar, sair do lugar.

AP: Como foi o encontro de Del Fuego e a Dulcinéia Catadora? Conte-nos sobre esse último lançamento.

Andréa del Fuego: Coleciono os livros da Dulcinéia, tenho quase todos. Um dia resolvi mandar alguns contos para a Lúcia, a editora, pois adoraria fazer parte da cartonera. A Dulcinéia Catadora é uma proposta arejada de publicação que, inclusive, está em muitos países da América Latina. O lançamento também é mais uma celebração de amigos na mesa de bar.

AP: Quais as grandes diferenças entre teus livros? Ou há uma espécie de sequência?

Andréa del Fuego: Há os três primeiros livros de contos e há dois juvenis. A diferença entre eles se dá pela própria ocasião da produção de cada um. A cada livro se inicia um processo que se refere a ele e nunca ao próximo. O que serviu para um não servirá para o outro. É sempre do zero que surge um novo livro, não tenho a sensação de estar escrevendo o mesmo livro em cada título, mas possivelmente há um tema, um personagem ou um ruído recorrente.

AP: Como foi essa vereda à escritura ao público juvenil (um romance e um livro de crônicas). Existe uma real distinção entre esse público e o adulto? Você concorda com essa categorização?

Andréa del Fuego: Se há uma distinção entre público adulto e juvenil é essa: o público juvenil é muito mais exigente, é um leitor que se lembra do título do livro e do personagem, nunca do nome do autor. É um leitor que não contextualiza como o público adulto, o livro se encerra nele. Tem sido interessante escrever juvenil, é um terreno enganosamente macio.

AP: Fale-nos desse encurtamento do conto e o esfacelamento dos gêneros com a prosa poética. Você escreve pensando nisso? Como vê sua produção literária nesse contexto?

Andréa del Fuego: Não penso nessa transformação, nem no gênero. O que me levou, na prática, a escrever um conto curto ou curtíssimo foi a experiência com o blog. Comunicar-se em uma pílula, em segundos. Essa portabilidade do conto, para falar na palavra da vez, a portabilidade. A possibilidade de mudar de operadora mantendo o mesmo número, ou seja, mudar o veículo (livro-internet) sem perder a literatura. Esse exercício acabou em dois livros (Nego tudo e Engano seu) e só. Ao escrever romance nada disso serve mais, é o zero outra vez. Estou agora em pleno zero, começando um romance.

AP: A internet contribui ao esvaziamento dos conteúdos ou é uma ferramenta promissora à produção artística?

Andréa del Fuego: Quanto à desvalorização do texto, tão “banalmente” exposto na rede, dou como exemplo um caso própria. Thays Lourenço, uma leitora do meu blog, produziu artesanalmente um livro com uma série que publiquei no blog. Ela enxergou o livro na tela. Ou seja, acho que a literatura carrega o livro, e não o livro carrega a literatura. A literatura pode ser exposta de inúmeras formas, inúmeras vezes e sempre terá a aura de um livro que é o seu veículo original. Outra coisa, estamos numa época fascinante de produção e publicação, e isso não deixa o leitor e o escritor menos capazes do rigor.

AP: Tua arte caminha para...

Andréa del Fuego: ... caminha para frente, escrevo com a experiência pessoal que se coloca disponível no processo criativo. Sobre essa experiência e memória vem a invenção. O estofo emocional e intelectual de cada personagem não sai do nada, sai do autor. Quanto mais o autor avança, maiores serão seus personagens. Quero caminhar para o futuro, como escritora, ainda que isso não se reflita nos livros e eles sejam lidos como lixo do tempo.

AP: Conte-nos sobre os próximos projetos e os desejos ardentes.

Andréa del Fuego: Deve ser publicado esse ano, pelo Ministério da Educação, uma novela com o título provisório de O cobrador. A publicação é o prêmio do concurso Literatura Para Todos que ganhei em 2008. O livro será distribuído em bibliotecas das escolas estaduais, municipais e federais do país. Tenho um romance adulto inédito, Os Malaquias, que deve sair no segundo semestre e vem outro infantil chamado Irmãs de Pelúcia. Estou escrevendo outro romance adulto, e claro, mantendo o blog.


BIBLIOTECA VIRTUAL - CONTO DEL FUEGO

GIRA

Andréa del Fuego

Nunca vem, quando vem, vem fraca. Meninota me disseram que adulta eu ia desenvolver mediunidade. E como? Sou rádio de pilha minguada, não sintonizo a voz. Porque não recebo, não posso girar a saia, acender um pito. Fico de assistente, chego a ter bondade antes de entrar no centro, mas pego os nomes que quero perto e deixo no bolso do avental. Vai que a cigana lê.

Fico ali entre o médium e o consulente. O pai-de-santo recebe uma cigana ruiva e gorda, ele é magro e se senta feito obeso num banco miúdo; ajeitando as dobras do outro mundo.

Faço de um tudo pra traduzir o que diz à moça. Anoto os banhos e as preces. Ela é noiva e quer que um fulano, casado, a esqueça; e rápido, está sem paciência. É a primeira vez que pedem pra afastar e não juntar, disse a cigana.

É que afastando ela queria unir, matemática enrolada, raiz de três.

Quando a última foi atendida - só vai moça no terreiro - pedi pra cigana ver minha causa. Ela foi dizendo que me faltava concentração nas sessões, que faltava disciplina, constância. Achei que quem falava era o cavalo e não o cavaleiro. Concordei com aquela mistura de magro com gorda e acendi as velas roxas, junto com a batata doce.

Vou levando.

O pai-de-santo é meu marido, culpa minha. Um dia o levei ao centro pra benzer, mandaram desenvolver, fazer a cabeça; justo ele sintoniza a voz. Agora faço a ponte entre ele e moças que querem homem. Num centro, o que se pede é a volta de alguém, eu inclusa. Meu marido, de cigana nos ombros, faz voltar até a memória. Sim, é pra ele enquanto aparelho que peço pra outro homem vir me buscar. Ele de nada se lembra depois que sobe a cigana, e me agradece.

Pedi pra conhecer o que impedia minha fuga e ela veio. Veio, aqui no centro, a esposa do amante que não me larga nem me toma. Perturbada, veio pedir pra cigana que eu, logo eu ali ao lado, saísse do caminho. Ri. Sabe quando? Nem quando o pai-de-santo é o marido da chaga dela, nem quando eu mesma é que escrevo o despacho feito com meu nome.

Meu prazer é ver fazer e desfazer; quando a fé não é minha, desconfio do milagre.


Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora da trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu (projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo), do romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal e do volume de crônicas Quase caio. Integra as antologias: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, Capitu mandou flores, entre outras. Mantém o blog www.delfuego.zip.net.


ESQUINA LITERÁRIA - POEMA PAPASQUIARO



COITO PAUTADO

Caldera de diablos eléctricos / mi piel a la caza de tus hornos
Entrada la noche en mis latidos
la fiebre levanta pirámides de agujas capaces de aparecer montañas en mi oleaje
Tu cuerpo es mi solazo : mi sótano negro / mi Rosa Mayor & mi pandero
la perrera de éter & cadencias que me vuelve 1 bruto pípila latigueador de camas
& lecho de Grijalvas sexo en selva
& nave florida & rinoceronte con arpón de plata
En la calle o en cuartitos
Enterrado en arena o en tus besos
Astros de esperma : martillos vivos escupo empujo lanzo al frente
a la calle o labio menguante en que te arrulles
Ni 1 dedo perderé / ni 1 mano de mis naipes

Tu rocío : tus terremotos son mi hostia / son mi droga
el pez de sangre que derrama con su danza a mis océanos
Desde estas alburas ya no sé
si herré tu silla de montar o tus pezuñas
La cama / que heredaste de tus tías aún me tienta
La Maga de Oliveira & de Cortázar la encuentro bajo el grifo goteante de tus aullidos blancos
Caldera horneada en la lira de sátiros sudados

Paisaje que en su ojo / elije los pinceles & el activo en los que ha de bañarse el Action Painting
Caldera de diablos eléctricos

tu piel contra mi piel hace milagros


COITO PAUTADO

Caldeira de diabos elétricos / minha pele à caça de teus fornos
Entra a noite em minhas pulsações
a febre levanta pirâmides de agulhas capazes de aflorar montanhas em minha ressaca
Teu corpo é meu solaço : meu sótão negro / minha Rosa Mayor & meu pandeiro
o
canil de céu & cadências que me tornam 1 bruto parvo açoitador de camas
& leito de Grijalvas sexo na selva
& nave florida & rinoceronte com arpão de prata
Na rua ou em quartinhos
Enterrado na areia ou em teus beijos
Astros de esperma : martelos vivos cuspo empurro lanço ao rosto
à rua ou lábio minguante em que gemes
Nem 1 dedo perderei / nem 1 mão de meus naipes

Teu sereno : teus terremotos são minha hóstia / são minha droga
o peixe de sangue que se derrama com sua dança em meus oceanos
Desde estas
alvuras já não sei
se ferrei tua
sela ou teus cascos
A cama / que herdaste de tuas tias ainda me
tenta
A Maga de Oliveira & de Cortázar encontro embaixo do grifo gotejante de teus uivos brancos
Caldeira enfornada na lira de sátiros suados
Paisagem que em seu olho / elege os pincéis & a ferramenta nos que hão de banhar-se no Action Painting
Caldeira de diabos elétricos
tua pele contra minha pele faz milagres


Mario Santiago Papasquiaro, alcunha de José Alfredo Zendejas Pineda, nasceu na Ciudad de México, em 25 de dezembro de 1953 e faleceu em 10 de janeiro de 1998. Foi um poeta mexicano, fundador do movimento infrarrealista. Este movimento poético é inaugurado pelo chileno Roberto Matta, depois de ser expulso do surrealismo por Breton. Em 1974 reaparece no México, sobretudo entre escritores como Papasquiaro e Roberto Bolaño.
Segundo o Manifesto Infrarrealista (1975), escrito por José Vicente Anaya, “o infrarrealismo é a espontânea e inesperada aparição da chave determinante que assalta
e destrói todas as regras que constringem e retardam o ser humano e suas manifestações. Assim, o infrarrealismo é a contingência que luta com os significados e mudanças que nunca podem ser previstas pelo racionalismo nem sequer com a ajuda de toneladas de equipes de precisão. O infrarrealismo está aquí, penetra em tudo e viaja no veículo do imediato”.

A antologia Respiración del laberinto foi feita em 2008, uma seleção de escritores como Bruno Montané, Juan Villoro, Diana Bellessi, Homero Carvhalo, Pedro Damian, Tulio Mora e Joseantonio Suarez, inédita até agora.

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