terça-feira, 8 de maio de 2012

De quando o livro não é a salvação, por Ronaldo Ferrito



Considerações fenomenológicas aos best-sellers ou De quando o livro não é a salvação

Ao amigo Aderaldo Luciano,
admirador convicto de Tom Clancy

Não faz muito tempo, estava reunido com alguns colegas num bar da Álvaro Alvim, centro do Rio, após o lançamento do livro de um amigo comum, que não somou mais de 30 pessoas. O curioso desse número não era tanto a óbvia escassez de leitores interessados em autores novos e sem renome, senão o seu caráter de pura cumplicidade. Dos presentes, a maioria, não por acaso, era de escritores – que garantiam ali uma visita recíproca quando fossem o autor da vez –, e a restante minoria contava alguns poucos parentes, que já na primeira hora da noite se retiravam, demonstrando estarem apenas cumprindo um suposto papel de família: o de apoiar, mesmo a contragosto, os projetos mais desacreditados de seus consanguíneos. Depois deste quadro em crise, o clima humano em nossa mesa foi o mais nublado possível para uma comemoração; pelo menos até o momento em que um dos colegas, após um gole lento de cerveja, nos lançou seu gracejo inesperado: “estou escrevendo um best-seller!”. Todos rimos agradecidos pelo lampejo de alegria, mesmo nos sendo evidente que, além do anacronismo, a frase nos propunha uma lamentável incoerência.

Se, por um lado, a ideia de um livro se arvorar em best-seller (o mais vendido) – mesmo antes de estar nas livrarias – causa entre escritores e intelectuais algum ridículo; para a máquina maciça do mercado editorial, essa mesma ideia inconsistente fundamenta o princípio vital de sua atividade, isto é: um livro só deve ser editado e distribuído se direcionado vantajosamente a um público leitor relevante. Nessa outra modulação de “público”, é preciso entender sobretudo o que passa a significar um “leitor relevante”. Certamente tal instância nada tem a ver com uma alta formação cultural de um indivíduo ou com uma exigência de leitura sofisticada. Na verdade, essa “relevância” do público leitor é muito mais simples do que isso, ela não se compromete com qualquer experiência de interlocução que possa torná-lo mais crítico, ou que favoreça sua autonomia intelectual e a consequente afirmação de uma sua diferença. Ora, ensejar diferença e autonomia seria permitir a transformação espontânea e aleatória desse mesmo público, o que redundaria no descontrole e inevitável morte de um mercado que precisa padronizar para prever suas vendas. Não é novidade que, nesta lógica de mercado, o público já deve estar pronto para receber o livro antes mesmo que ele seja lançado, ou pelo menos antes que algum crítico o tenha resenhado. Portanto, essa “relevância” editorial conta com o mínimo de experiências modificadoras deste público, se baseia na manutenção de padrões de consumidores e na eliminação de suas possíveis diferenças, em favor da formação de uma instância coletiva e uniformizada. O resultado dessa operação sistêmica é catastrófico: a privação das possibilidades do diálogo radical (porque autêntico) travado entre livro e leitor – relação que é a própria inauguração e sentido da leitura.

Nessa proposta editorial, a leitura “relevante”, que antes nos solicitava um longo período de dedicação e de constante mudança na nossa mundividência, é entendida – dentro da sôfrega dinâmica dos campeões de venda – como um procedimento simplório de decodificação de palavras e de compreensão imediata. Ela se esgota na mera satisfação e na cômoda concordância com as expetativas prévias de quem lê. Leem-se 500 páginas em um dia, sem se correr o risco de se ter que refletir sobre ao menos uma delas novamente, salvo se essa for uma ponte técnica que se esqueceu na gordura do enredo – o que não seria propriamente “refletir” sobre algo. O resultado dessa atitude de leitura, recente no Brasil, é visível em qualquer lugar, mesmo nas mesas tantálicas de escritores. O “leitor relevante” criado nesta dinâmica mercadológica, e alimentado pelas grandes editoras, é a figura já majoritária do consumidor frequente de um livro sem leitura. Nessa abstração absurda, o livro mesmo é a única coisa irrelevante (uso agora a palavra sem orçá-la na semântica do mercado). Sem a experiência real de uma leitura, o livro não é mais do que um produto alienante como outro qualquer em uma prateleira especializada; e o seu leitor, também não mais que uma ardilosa “ficção” – tanto este quanto o livro chegam mesmo a não existir enquanto experiências efetivas. Prova dessa ausência de sentido existencial, ou de autonomia de sentido, se vê no modo como tais livros nos chegam. Antes mesmo de qualquer crítico os resenhar (sem querer dar mérito a resenhas), são anunciados e sucedem um a outro como se fossem quase uma mesma obra: o sucesso de um livro anterior contamina o outro que acaba de chegar, ou mesmo o próximo que sequer foi terminado. Um exemplo atual é o recente estouro de George R.R. Martin (Crônicas de Gelo e Fogo) anunciado no Brasil com a seguinte fórmula: “O melhor clássico do gênero desde O Senhor dos Anéis”. Além de afiançar o livro como “melhor” e como “clássico” antes mesmo de ter sido terminado, o anúncio pretende obliterar todas as demais publicações, tratando-as como concorrência. Essa concorrência de fato existe nessa lógica, ela é a coesão de um público único que não deve ser dividido. O novo best-seller de G. Martin conta com os leitores de Tolkien para esvaziar as prateleiras das megastores. A estratégia aqui, longe de primar pela demarcação de uma diferença própria de um livro em relação aos demais, é a de igualá-lo a todos, para depois sobrepujá-los. Até mesmo a palavra “gênero”, que aparece despretensiosa no anúncio, revela uma setorização e uma territorialização. Não imagino possível o mesmo ser feito com autores de narrativa magistral e de intensa potência de pensamento como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos; ou Adonias Filho e Jorge Amado. Seria aniquilar as suas diferenças e autenticidades, além de que nem um leitor razoável concordaria. Dizer que “Guimarães é o melhor clássico do gênero desde Graciliano” seria demasiado contundente, seria não ter passado pela experiência de leitura de nem um dos dois. Toda essa propaganda só é possível quando um romance já nasceu no berço que os faz best-sellers. As suas vendas astronômicas nada têm de espontâneas ou acidentais. Daí aquela frase de meu amigo ser risível, embora possível e até comumente praticada. Um escritor produzir um best-seller premeditadamente é abrir mão de sua obra e de leitores reais, para servir a gigantes editoriais e alavancar consumidores de livros.

Não é minha intenção produzir argumentos contra best-seller, essa atitude seria não só inútil, mas também um ato intolerante e gratuito contra os leitores que optam apenas por fruição, num dado momento de suas vidas, fazendo da leitura um entretenimento passageiro. A questão aqui não é ingênua. Não se trata de censurar a produção de uma linha editorial com livros comerciais para os leitores, mas sobretudo rechaçar a formação de leitores para os livros comerciais. Atualmente esta é quase exclusiva. Obviamente, o mercado livresco, ainda que dominado por gigantes de linhas editoriais preeminentemente comerciais, não teria o poder de moldar um tipo conveniente de leitor brasileiro, caso esse estivesse previamente guarnecido de certo senso crítico. Essa formação crítica, porém, está hoje explicitamente ameaçada por alguns governos que, ao fazerem compras infundadas com certas editoras (não falo de editais abertos, mas de projetos prontos saídos de dentro de secretarias e fundações municipais de educação), estabeleceram planos de alfabetização e formação de leitores dentro de uma lógica absurda e aviltadora. Recentemente fui testemunha de uma implementação bibliográfica dentro de um município por meio de um projeto de formação de leitores. Com o pretexto estouvado de que os títulos novos atendiam aos interesses dos adolescentes atuais, o tempo de leitura dessas crianças foi ocupado com títulos de J.K Rowling e Stephenie Meyer, solapando não só uma certa literatura brasileira contemporânea, mas qualquer outra estrangeira de qualidade. Nesse câmbio, não se cogitou sequer escolher livros de escol em língua inglesa, claramente não se tratava de interesse na produção literária de outros países. Pergunto-me: quais foram então os critérios de escolha desses títulos? Dar a crianças a responsabilidade sumária de decidir, mesmo sem nada conhecerem de livros, pelo que é mais fundamental em sua formação de leitores seria sobretudo um ato vilipendiante – tira as condições de desenvolvimento e consequente inclusão social de uma pessoa de escola pública no único espaço formal que ela possui para tanto – e de puro mau-caratismo. E não se pode acreditar em maus-carateres que queiram agir puramente, somente realizar o mau-caratismo, sem levar consigo alguma vantagem. Essas escolhas, no melhor dos casos, demonstram menos a preocupação real e ética com a formação de bons leitores (ninguém afinal precisa de cultura literária formal e escolar para ler “Crepúsculo”) do que a busca cada vez mais obsessiva e pragmática de que as pessoas comecem a “ler”, de que sempre estejam “lendo”, “lendo”, não importando neste ato o que elas leem. Percebemos facilmente que, até mesmo no contexto da educação, vigora de modo amplo o sentido de “leitura” próprio ao mercado editorial. O poder executivo brasileiro se preocupa hoje em investir massivamente na erradicação do analfabetismo de sua população, mas tais investimentos correm o risco de tirar o indivíduo de uma situação de carestia cultural para um outro nível de precariedade: o avassalamento cultural e a sua massificação.


Ronaldo Ferrito é ensaísta, poeta e editor da Confraria do Vento. Doutorando em Poética, pela UFRJ, publicou o livro A Via Excêntrica (2010), premiado com a bolsa para escritores da FBN, na categoria ensaios literários. E-mail: roferrito@gmail.com

ORIGINALMENTE PUBLICADO NO PORTAL MUSA RARA - Literatura e Adjacências - http://www.musarara.com.br/de-quando-o-livro-nao-e-a-salvacao#comment-864

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Prosa de palavras, de Karen Debértolis

ARRISCO-ME ARRISCA-TE A VIDA 

Karen Debértolis, em sua “Prosa de Palavras”, coloca-nos em risco logo em seu primeiro texto. 
“Língua” nos joga na cara palavras afiadas deste deserto de asfaltos e ignorâncias em que nos encontramos. Sem meias palavras e nem doces elogios, Karen abre-nos para o livro com palavras diretas como flechas que acertam o alvo, na mosca. 
Nos textos que se seguem, suas palavras nos conduzem a imagens cotidianas, momentos de introspecção, reflexão e refinada lucidez. A dinâmica dos textos produz tensões e suspiros. Respiramos em meio a bombas, desertos áridos e cores foscas com “Pés da Nuvem” e “Amor”, como em um oásis que dá uma trégua e refaz energias para enfrentarmos novamente as areias escaldantes. 
Adiante, Debértolis continua em sua constante necessidade de nos jogar na cara (e não é de hoje e nem apenas neste seu livro que ela teima em falar incômodos) imagens que não existem aparentemente, mas as quais pulsam atrás de nossas retinas. Vislumbra sonhos impregnados, cotidianamente, em cada um de nós, para finalizar com sangue que escorre e grita da seiva da natureza, seiva que antes era refrescante e alimentava a humanidade, mas que agora, vermelha e densa, resseca as nossas almas. 
Karen Debértolis escreve como quem uiva em noites de lua cheia, como que para nos lembrar/avisar da vida, situação-espaço a ser encarada, a cada momento, antes do abismo final. 
Não existe dia possível sem um risco a ser desvendado. 

Fernanda Magalhães 
Artista, performer, fotógrafa, arriscando-se ao escrever para “A Mulher das Palavras” 

terça-feira, 10 de abril de 2012

domingos em nós, de Beatriz Bajo

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


prefácio da autora

o livro é uma tentativa de resgatar sóis, reacender estrelas que estão sendo opaciadas no fazimento da geleia real cotidiana. os apagamentos causados pelo sistema educacional brasileiro são um assassinato como qualquer outro e provocam máculas pra toda vida.
por isso, resolvi rasgar verbos nos versos vomitados de ira contra o processo falido da educação mascada tantas vezes em minhas experiências em sala de aula; mas abri os botões dos motivos concernentes aos aprendizados, e bordei no livro as peregrinações do ser por e para dentro de si; um caminho para a ascensão da luz interior através dos encontros com os autodidatas.
também pensando no devir, conceito surgido desde Heráclito - o filósofo discorre que a única coisa imutável na realidade é a mudança, asseverando: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti” - e retomado por Nietzsche em “torna-te quem tu és”, o livro fotografou cenas cujo tema é aprendizado e caminho para o vir a ser.
para se aprender, são necessários infância (mesmo que seja a de dentro) e asas. neste sentido, a palavra costura e cria mundos; logo, criança aqui é seiva aos versos e a chave mestra da vida e de todas as instituições falidas. só o olhar atento às singelezas pode salvar-nos do mundo sombrio.
este trabalho revela imagens a um diário ontológico impreciso, em que não há domingos.

Beatriz Bajo

rio sou francisco, de Chico César

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/



o versador de líquidos

Por Beatriz Bajo*

rio sou francisco foi o livro inspirador à criação da Rubra Cartoneira Editorial, que institui o fenômeno “cartoneirismo” no estado do Paraná. cartonerismo é um termo advindo da iniciativa de algumas editoras utilizarem papelão para a confecção das capas de livros, nascido em consequência da crise argentina de 2002, que culminou com a criação da Eloisa Cartonera e outras editoras, espalhando-se pela América Latina e atingindo alguns países da Europa, como Espanha e Alemanha. rio sou francisco, então, inaugura o selo com outros autores eleitos pelo amor. 
depois de ler Cantáteis: cantos elegíacos de amozade, fiquei assombrada com o talento poético de Chico César. seu primeiro livro merece ser lido e relido, haja vista que o poeta constrói uma rapsódia em cordel com versos enfeitiçados e desdobrados em belíssimas imagens.
sete anos depois, seus poemas tornam-se cordas feitas com tendões inflamados pelo arco tensionado a cada flechacesa disparada nos olhos bem abertos do leitor. lira rica que compõe laços, enrosca-se em nós, acorda cidades e embala casas no colo silencioso de cada poema constelado no “céu de solua”.
Chico fabrica uma poesia atrevida, vigorosa, em que as palavras dançam no ritmo endiabrado de seu resfôlego...mas conhecem o momento de estancar e permanecem no seio encantado da cara literatura.
com a língua rara da poesia, o autor lambe versos que vão aguando os botões floridos das palavras aladas, desabotoando escuridões...e, assim, bebemos a água doce do rio que é o Chico.



A ENERGIA DA HARMONIA

Por Marcelo Ariel**

Poesia e música se entrelaçam e se encontram dentro da energia do silêncio, fonte e destino de toda a música do mundo e força ampliadora dos sentidos de todos os poemas. Chico e Francisco se abraçam dentro dessa energia, talvez a poesia seja uma maneira de converter a energia da memória, matriz de todos os sonhos em música, um tipo de música que é uma fusão de todos os silêncios que atravessam nossas vidas: a interior e a exterior.
Chico e Francisco dialogam dentro desse livro com o silêncio e os silêncios, a música e as músicas, dialogam e se abraçam como um rio abraça o mar, o menino e todo poeta é em essência um menino antigo e o homem, todo músico é no fundo o destino-devir interior do fator humano.
Chico e Francisco aqui se encontram unidos para sempre porque a poesia ao conferir um sentido maior para o silêncio e os silêncios, para a música e as músicas, se confunde com a vida.




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*Beatriz Bajo é poeta, editora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são a face do fogo (SP, 2010), : a palavra é (PR, 2010) e domingos em nós (PR, 2012). Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/).


**Marcelo Ariel é poeta, conselheiro editorial da Rubra Cartoneira, dramaturgo e performer. Seus livros são Me enterrem com a minha Ar-15 (Scherzo-Rajada) (SP, 2007); Tratado dos Anjos Afogados (SP, 2008), O céu no fundo do mar (SP, 2009), Coltrane Blues (SP, 2010), Conversas com Emily Dickinson e outros poemas (RJ, 2010), A morte de Herberto Helder e outros poemas (SP, 2011), A segunda morte de Herberto Helder (PR, 2011) e Cosmogramas (PR, 2012). Mantém o bloguehttp://teatrofantasma.blogspot.com/.


Cosmogramas, de Marcelo Ariel

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


Prefácio do autor

Escrito especialmente para a RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL de Londrina, uma ideia-ressonância que foi materializada por Beatriz e Jesus Bajo. Este livro se divide em duas partes, na primeira chamada Cosmogramas estão os fragmentos de coisas que escrevi dentro do mangue de Cubatão, uma série profundamente inspirada na audição do disco COISAS de Moacir Santos, o que o Mestre Moacir chama de Coisas eu chamo de Cosmogramas, trata-se da mesma energia espiritual da natureza, que ele traduzia como música e eu ambiciosamente traduzo como textos. Não me interessa mais escrever poesia, é um campo infestado de egomaníacos sutis, me identifico profundamente com o que o grande Nicanor Parra quer dizer quando chama a si mesmo de ‘antipoeta’, escrevo uma coisa híbrida entre o poema e a meditação koan do Zen. Me interessa mais o koan do que o poema. Ainda não desenvolvi a elegância suprema de não assinar mais meus textos, a própria ideia de autoria é ridícula como os conceitos de pátria, fronteiras, nomes e etc. Sou como você, um covarde, e não possuo a coragem extraordinária de viver sem um nome. Me tornar eu mesmo uma Coisa, um Cosmograma vivo.

Marcelo Ariel







Não tenho pena do poema, de Reynaldo Bessa

originalmente publicado no blogue da RUBRA CARTONEIRA EDITORIAL - http://rubra-c-editorial.blogspot.com.br/


a melhor forma de matar o tempo

Por Beatriz Bajo*

do meio da fila indiana formada pelas reticências que visitam as línguas, irrompem versos que rugem. incisivos como uma fera faminta atrás de sua presa, alvoroçando a floresta-linguagem com suas patas-palavras afiadas na jugular do poema.
masculina. aguda. atrevida, a voz não tem pena do poema porque o trata também como impiedoso. e ímpio para ela pode ser o trabalho rascante do artista (mais invisível do que seu olhar oblíquo):

volto (volto?) sob o pó do cansaço, encharcado
de noites e
com os dedos trêmulos ainda tentando segurar
a alça de um ataúde
que há pouco desapareceu no escuro que nunca
morre. (44)

, a vida:

dentro
da velha companheira
caneta bic,
uma dor líquida
cor azul-infância. (11)

ou a fêmea

sinto por você o que o amor ainda desconhece (36)

, numa luta corporal em que cada um perde um pouco de si, sangue derramado sobre o tempo a galope que escoiceia os anos descompassados como uma espada que atravessa o pescoço de uma criança desavisada dos prazos de validade.
Reynaldo Bessa, depois de Outros Barulhos - Poemas e Algarobas Urbanas, reaparece como um serial killer, sujo da graxa da vida, manchado de humanidade, esbaforido por nadar contra a maré dos instantes...munido com verbos apimentados.
não há piedade na poesia besseana porque seu maior inimigo está no espelho e tem a medida exata de sua força, a estatura de todos os seus medos e usa da mesma faca tantas vezes amolada no porão de si - arma branquíssima aos silêncios desafiadores.
o poeta atira versos, atiça a fogueira dos encontros, levanta as saias das meninas que dormem nas suas mulheres, sacode a rua como um moleque deslumbrado com sóis escondidos e assim engatilha um livro de alto calibre:

apenas quero ser arrebatado
como o serial killer que no fundo mata
para, enfim! ser preso (47)

enfim! a presa é o leitor que desenvolve depois da leitura de Não tenho pena do poema a Síndrome de Estocolmo, em que a ameaça transforma-se em prazeroso sequestro do tempo morto para o êxtase renascido por dentro da literatura, espelho do mundo que não morre mais.



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*Beatriz Bajo é poeta, editora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são a face do fogo (SP, 2010), : a palavra é (PR, 2010) e domingos em nós (PR, 2012). Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/).

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene



Heidegger deixou os rastros de que “Jamais e em nenhuma língua o pronunciado é o dito.”
(HEIDEGGER, 1969, p. 44).


O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios, de Léo Mackellene, trata exatamente desse artifício de amontoar palavras para o estratagema do que mais se aproximaria da verdade: “Só alcançamos as palavras. E as palavras são sombras. A verdade é uma floresta nebulosa, porque a verdade não é a verdade, são palavras. Assim, reinventar o mundo, meu caro poeta, é ressignificar as palavras.” (p.9). O livro passeia pela mata espessa, entre as emboscadas, com a opacidade de quem cose para dentro, interceptando o que é brilhante.
Em súplica de franca natureza, o verso responde que “O mundo inteiro estremece no punho” (p.10) e denuncia o poeta como o responsável pelas mazelas de tudo, haja vista que “O mundo inteiro é culpa de quem imagina/ não de quem vive” (p.11). A trama dessa obra está aquém e abaixo da forma e das fôrmas, no cultivo em perfil denso de nascimentos. O trabalho dO livro das sombras tem a gravidade e gravidez dos signos em inauguração.


Gota
abre-se
silêncio 
interpelado chão 
avança 
furiosa 
penetrando a terra 
vai rasgando o chão [...] 


A vida fervilha em seiva. Uma flor borbulha pétalas. Ouve a respiração ofegante das folhas donde soa em ebulição o silêncio. - Um cardume de mãos Invisíveis se move dia e noite semeando suas sementes. (p.16). Assim Léo arquiteta um livro-casa que abriga as correntes do inconsciente pessoal, das profundidades que reinventam o mundo, onde se encontram as ligações que fazem parte das raízes de tudo o que se é e do que se manifesta. 
Entretanto, seu trajeto é reverso; o caminho é todo árvore em sussurro. Este “é o destino dos homens// (Raízes nos habitam)” (p.18). Mais que a coisa, busca-se sua sombra. No poema “O caminho das árvores”, percebe-se a bela metáfora da mulher-árvore. Toda feminilidade é alcançada em versos de uma sensualidade rica e apurada. Avança lenta e cautelosa sob o peso de seus galhos e seus ramos vestida de flores e sua pele de folhas. Avança pela intimidade dos caminhos. [...]Ela percebe? Percebe! Percebe! É bonita demais pra não perceber insinuações. Para mulheres assim, o mundo é inteiro uma insinuação. (pp.18-9). 
Assim que a trilha à leitura dO livro das sombras vai sendo inventada em plena desarmonia da natureza pa[lavrada]: “a mulher é uma árvore que renasce.// A verdade não é o que existe,/ é o que a gente deixa existir.” (p.19). Na mesma medida, a concepção das novas verdades e dos significados estão em gestação, arvoradas de sentidos a serem inaugurados. Fetos afetados no útero do universo. As mulheres carregam sementes no ventre. Vem das suas certezas a altivez com que me aplaca o juízo. E da alma inquebrantável de verdades a completude com que me atrai os sentidos. Ela traz a segurança das mulheres grávidas das mulheres prenhes da verdade. A verdade o estágio mais alto de toda beleza.(p.19). As raízes de uma árvore não são fáceis de perceber; contudo, são imperativas à sobrevivência da mesma. 
Também essa é a proposta dos pequenos silêncios de Léo Mackellene, em sua obra que prepara um terreno abrigado da palavra. Em “O jardim das horas”, Dois deuses acima de nós disputam o controle de nossos atos o destino e o acaso. (p.29) o que se percebe é a ida ao encontro do silêncio ao desvendamento do que ainda não foi re-velado. O oculto das coisas está nessa sacralidade silenciosa que é a verdade. A des-coberta acontece em sigilo; é na refração que se pode alcançar. 
Ler... É uma árvore que desperta, respira profundamente e se ergue. Deixa que a palavra te leve, que ela é um barco que navega sem leme. (p.32). O silêncio esculpe a palavra; o auge do silêncio é a transcendência do tempo: “Pois entra e senta/ que o mundo é secular e ele pesa./ Diz como quem tem fome./ Pára...” (p.33). Fabulando as significações é que as palavras excursionam “O jardim silenciado”, atuando em processo metafísico, com a ciência de serem reflexo. Eu sou o último galho o que sobrou... e aqui estou sob a sombra dessas árvores e dessas plantas entre as dobras dessas páginas brancas, vivendo secretamente em ti. (p.46). Aqui se dá o esfacelamento do ser, enfraquecido de saber-se perecível. Vestígio humilde de certificar-se abaixo da sombra das palavras que não alcançam a verdade, mas, incansavelmente, procuram-na: “Aqui,/ um segundo/ é a eternidade doendo.” (p.47). 
O poema que encerra O livro das sombras é “O quintal dos dias”, o terreno atrás da casa-livro, em que se operam as oportunidades da linguagem. Léo novamente transubstancia o indivíduo, agora fundindo à árvore a sabedoria humana. Gigantes sábios e benevolentes retiraram-se dos campos - onde havia gente - E embrenharam-se na floresta, Transformados também em árvores. (p.50). Descarnando-se, ou seja, fugindo da solidez do que já está posto, a obra sugere uma reflexão, uma compreensão que se dá além das palavras, em sua virtualidade: “O fruto é uma revolução silenciosa.” (p.50). 
Léo Mackellene empenhou-se com uma destreza assombrosa sobre o que se passa através dO livro das sombras, em confecção íntima e precisa de uma textura sobre a matriz da palavra – o silêncio –, alcançando o que se pretendeu ou se pressentiu construir no enovelado e nodoso versejar grávido de sentidos.



referência:
MACKELLENE, Léo. O livro das sombras ou O livro dos mais pequenos silêncios. Fortaleza: Mangues & Letras, 2006.




sobre o autor: 
Léo Mackellene nasceu em Fortaleza no Marco Zero dos anos 80. Tocou em bandas de rock. Publicou poemas e contos. Saiu de casa aos 11 anos. Morou em cidades diferentes. Amou, se embriagou, chorou. Participou do movimento estudantil e hoje vive como mestre em literatura (UnB) e leciona na Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, na terra de Domingos Olímpio, Sobral. Mantém o blogue http://olivrodosmaispequenossilencios.blogspot.com/