sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sarau Sereia Ca(n)tadora

O selo de livros artesanais Sereia Ca(n)tadora promoveu nesta sexta-feira (25), às 20 horas no Sesc Santos, o lançamento de três novos títulos de poesia: Olho por Olho, de Regina Alonso, A morte de Herberto Helder, de Marcelo Ariel, eHI-KRETOS, de Paulo de Toledo. É o Sarau Sereia Ca(n)tadora, que contará também com a participação do escritor Flávio Viegas Amoreira, próximo autor a ser publicado artesanalmente, e do grupo experimental Percutindo Mundos. Amoreira e Ariel são dois dos autores deste blog.
Os livros são feitos de forma artesanal, com capas pintadas uma a uma em papelão reciclado. O selo, ideia de Ademir Demarchi, editor da Revista Babel de poesia, conta com a parceria do Instituto Camará de São Vicente - ponto de cultura ligado à assistência à criança e ao adolescente.
Criado entre Santos e São Vicente, o selo Sereia Ca(n)tadora publica livros com papel reciclado e capas de papelão catado nas ruas, trazendo para a Baixada Santista uma experiência editorial que tem se alastrado por toda a América Latina, onde mais de 15 editoras "cartoneras" têm publicado uma série de poetas e prosadores em todo o continente.
O primeiro título da Sereia Ca(n)tadora, Voo de identidade, foi publicado em novembro de 2010. É uma edição bilíngue (espanhol/português) de Vuelo de identidad, do poema peruano Óscar Limache, até então inédito em português, que esteve em Santos para o lançamento.
Uma das capas de Voo de Identidade, de Óscar Limache

Serviço:
Sarau Sereia Ca(n)tadora
SESC Santos

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

SILVAREDO É A COLHEITA DE WILMAR SILVA. OU NINHO OU ROSÁRIO OU ESPINHO?

Silvaredo é a colheita de Wilmar Silva. ou ninho ou rosário ou espinho? é de Silva e de Minas o que pousa no caule-livro do que se planta nos pés dos olhos arrebatados por arranjos de pássaros e flores, solo de colibri, pardal de rapina, anu e salmos verdes, seus cinco livros dentro do Silva, a coleção deste: SILVAREDO.

Quando o vento sacode os versos, corrompe as palavras: “eu-curió, exangue, por t, despetalo-me” (36). E o pássaro bule com a pássara por meio de vocábulos onomatopaicos - "onde eu-rouxinol, chilreio agudos por ti"(46) - que verbalizam a ânsia do eu-lírico, assobiando aos interlocutores – haja vista a frequência de vocativos: “floro, palmas eu-estuário, planície/ de sapotis, onde te canto, ó patativa /” (23).

As palavras ganham cor em seu atrevimento de personificar aves e flores e inverter suas formas e cortá-las em arranjos de pássaros e flores. No entanto, o corte é interno e o poema é lamento denso, profundo e coalhado de antíteses e dores em tons terrosos. Wilmar é rocha que se arrebenta quando a água vai cair e vira pássaro e voa com as asas dos versos em eclipse, em elipse, todavia resplandecentes, como em " Arranjo de zabelê nenúfar, dia 13":


eu, vertical, crispo nuvens de juncos

e zabelê, percebo, eu solcris em eclipse

clave e vermelho, poente – fogo e archote

em clima de erosão, te entorpece,

ó alado arcanjo que eu chamo de ariel,

antes todo vale em aclive pelo declive

agora, aqui – sobre a origem da água,

desvio por igual, retinas em debrum

íris afluentes – neve, aragem, brisa leve

que rasga nenúfar / oceano e sertão (29)


Em solo de colobri, há fabricação de ninhos e volúpias. Sempre a escolha é por palavras enérgicas, remetendo à virilidade masculina e à força da natureza: “sob a neblina da primavera/ rompo [ grafo pela sesmaria, no cume e montanho/ crisântemos acesos ao sol/ na clave do olhar, melnéctar” (57). O eu-lírico não metaforiza os elementos naturais, mas estes se manifestam naquele, como em “montanho”. Nomes são verbos através dos quais o poeta se transubstancia.

Em pardal de rapina, novamente aparece a sensualidade e a caça pela beleza – feminina –, já que há poemas cujos títulos são referências a deusas como Afrodite, Vênus, Tétis, Dríade, além de Noiva e de Eros, deus do grego amor (cupido): “varou em mim tua papoula/ de ópio e ouro nos lábios/ erotizou-me tua pássara/ antes fugidia e fugaz” (87).

Em outro momento, Wilmar retorna às raízes, às corrosões: “onde habita a insana/ a seiva e a via-láctea/ sou punhal e púpura” (99), às sedes e às esfomeadas aspirações poéticas, ainda que inconsoláveis como em lenitivo “mesmo que eu faça um poema/árido e torrencial é o sertão” (101) ou em o pão: “ouço teu ir dentro da noite/ e fico preso em mim” (114). No entanto, embandeira, alguma fagulha de esperança lambe suas letras: “longe de mim e longe de ti/ aves ganem no inverno da noite/ crianças ilhadas à lua/ haverão de molhar as almas” (117).

Em “anu”, a poética wilmariana configura o céu das palavras – estas brancas dentro de um quadrado preto, distinguindo-se da outra brancura das páginas –, fabrica-as, remodela-as, constelando significados: “poçudespelhosáslisárguacor” (127), desdobrando o sistema linguístico como se desdobra o firmamento...basta prestar atenção e as imagens surgem no céu, feito palavras...assim como a abertura que o poeta comete em seu livro curiosamente semeado de estrelas visuais e sonoras.

Também o eu-lírico é um chacal, animal carnívoro de hábitos noturnos, caçador que se alimenta de carcaças concretistas, antropofágico poeta rasgando verbos dentro da galáxia semântica que fulgura assim assim:


triçaentrioandorinhasanu

antespeleveredaeupaulavra

viropássarosoumesmoanu

perdíceonocoraçãodeminas

essepassarinhosóldscamiar

riomarnointeriordasgraiz (156)


Em “salmos verdes” há brancos à esquerda e versos à direita. Silêncio e expressão. Um antes do outro...como tem de ser. E fusões e entroncamentos nas repetições de palavras roda-vivas e de conectivos sem tempo, como num transe, seções em ramos...remos? rezas? Ruídos? Há sempre lágrimas em cada prece-poema: “mina d’água para roda d’água/ fazer flor d’água” (169) ou:

o tigre abatido na caçada de espingarda e curupira

a pele do tigre exposta para mirar e farejar

e passar a pele das palmas e puxar a pele das plantas

e tocar de leve e comprar e levar para expor no mármore da casa

e depois e sempre pisar sem pena e nem dó

pisar com as plantas como se pisa na terra que também tem alma

e pode chorar e está chorando e chorando torrencialmente

e mais que a chuva e muito mais que a tempestade

essa tempestade toda

só de poemas que eu tenho lá na entranha do meu sangue (195)

O poeta é pujante com a árvore significativa de sua sagrada escritura porque recorta angústias nas melodias de papel: “ah dói mesmo é pensar que sou humano// fosse primitivo meu olho de farol/ e meu ouvido cata-ventasse” (165), roendo os enfeites apalavrados na trama mais descosturada de sua poética: “essa América esse Brasil esse triângulo/ rio paranaíba e acordasse o mundo de estilhaço” (197). Tudo é roto, corroído e arde, pode ser estarrecedor, mas paradoxalmente é de uma delicadeza ímpar...aqui, Wilmar é verde, seiva radicada no poeta, original como é a poesia, banhada com a sacralidade de cada verso alimentado deste sangue tão dele que é nosso.

O livro nos ramos do corpo, outra forma de prová-lo:























Referência:
SILVA, Wilmar. Silvaredo. Minas Gerais: Anome Livros, 2010.


Sobre o autor:
WILMAR SILVA, Rio Paranaíba, Minas Gerais, Brasil, 30 de abril de 1965. Livros: Çeiva (Brasil, 1997),Arranjos de Pássaros e Flores, (Brasil, 2002), Cachaprego (Brasil, 2004), Anu (Brasil, 2008), Estilhaços no Lago de Púrpura/ Astillas en el Lago Púrpura (Brasil/ República Dominicana, 2009), Estilhaços no Lago de Púrpura/ Lágrimas en el Lago de Púrpura (Argentina, 2009), Yguarani(Portugal, 2009), Silvaredo (Brasil, 2010). Performances: Afrorimbaudelia, Subida ao Paraíso, O sétimo Corpo, Ee Tu Mao, Eusmaranhados. Videopoema no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, Brasil. Participa das antologias: Antologia da Nova Poesia Brasileira (Brasil), A Poesia Mineira no Século XX (Brasil), Oiro de Minas a nova poesia das Gerais (Portugal), Máscaras de Orfeo (República Dominicana). Organizou as antologias: O achamento de Portugal (Anome Livros, Consulado Portugal Belo Horizonte, Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto Camões), Terças Poéticas: jardins internos (Secretaria Estado Cultura MG, Fundação Clóvis Salgado, Suplemento Literário). Curador do projeto de poesia Terças Poéticas, Secretaria Estado Cultura, MG. Trabalha no projeto de pesquisa de poesiaPortuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética, 1º. ensaio em livro-dvd com 101 (cento e um) poetas de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Brasil (Minas Gerais), publicado em junlho de 2009. Faz o programa de literatura Tropofonia, um laboratório de sons e palavras, pela rádio educativa UFMG (104,5). Blogue: www.cachaprego.blogspot.com.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

a face do fogo NA FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE FRANKFURT, ALEMANHA

evidentemente que estou imensamente feliz por meu livro estar no catálogo 2010 que a editora Annablume apresentou em sua primeira participação na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, na Alemanha.
no entanto, mas que isso, fico feliz com a qualidade da literatura brasileira que está sendo exportada e orgulho-me por fazer parte de uma editora séria e comprometida em selecionar autores importantes ao cenário literário contemporâneo. aí, falo sobre o selo [e] editorial, do qual faço parte, em que se encontram também Marcelo Tápia, Jaa Torrano, Ana Rüsche, Márcio Américo, Ademir Assunção e Antonio V.S. Pietroforte, Tamara Sender, Héctor Hernández Montecinos (poeta chileno), Claudinei Vieira, Donny Correia, Deborah Goldemberg, Claudio Edinger (fotógrafo), Flávia Santos, Markéta Pilátová (escritora checa), Furio Lonza (escritor ítalo-brasileiro), Marília Kubota (escritora e jornalista), Luiz Roberto Guedes, Marcelo Sahea...entre outros queridos.
parabéns a todos desta equipe, da editora Annablume, da sua parceira Demônio Negro e todos os autores, sobretudo, os do selo [e] editorial ....rs

deixo fotos do catálogo.








orelha do FANTASIAS PARA QUANDO VIER A CHUVA

LADO DE FORA

sobre o livro fantasias para quando vier a chuva, de Samantha Abreu


Fantasias para quando vier a chuva é um livro em que a poesia caminha em cima do muro, lutando entre o lado de fora e o lado de dentro. Todo feito de imaginação caprichosa, vestindo disfarces de bom gosto e tons fortes para enfrentar a chuva, que aqui é o desfeito mundo das não-fantasias.

A poesia da Sá recusa-se à quarta-feira de cinzas, fabulando versos que não escorrem, mas sacodem as poeiras da vida. Confetes de encantamento e cores de extasiar enfeitam as páginas do livro que está ambientado no baile de máscaras em que as palavras se trasvestem, envoltas pela serpentina do dizer.

O livro, que está dividido em cinco temas, trabalha o embate entre si e consigo emO Silencioso Recôndito”...é derramamento de uma melancolia que só compreendemos e sentimos em dias chuvosos, como acontece no poema O avesso: “Aqui fora, claridade./ Mas o avesso está coberto de sangue.”.

Os bocados femininos que foram pulverizados pelos dedos de Samantha Abreu encontram-se em “Bonecas Suspensas”, assim assim:E da ponta dos dedos da menina, luzes se decompõem poeticamente no universo.” (Mãos de Medusa). Mas, Pandora é a síntese do que está escondido debaixo dos panos da estreante poeta (nova feiticeira?), que abandona a escuridão: A]breu[.

A londrinense mata o real em “Onírico Enleio”: “Meu mar de mortos: ‘negro purgatório de ensejos aniquilados’” e adorna-se de aspirações em “Irrepresável Vira-Ser”. Mas é emA Rubra Desordem” que o amor é “terra de ninguém” ou desencaixe ou “Uma história sem pé nem cabeça.”. Todos os guarda-chuvas aparecem na passionalidade (in) (a) (p)...algumas gotas penetram o tecido e inundam de lirismo e torpor quem se atrever a reconhecer-se: “– Você consegue ver, ele disse,/ que onde me começo/ te termino/ e que não há mais espaço/ pra ser você em você mesma?”.

A obra que trata de “tudo o que desorganiza” merece ser vista e vestida porque nada do que desfila em seus versos é verdade. Samantha Abreu arquiteta um cantinho cheio de deliciosas mentiras tão insubordinadas que acabam por criar outra realidade mais oportuna, bem mais digerível que a nossa...mais afortunada.

Cair das nuvens aqui é pisar em versos, pegar quimeras e salvar-se das tempestades.

Referência:

ABREU, Samantha. Fantasias para quando vier a chuva. Rio de Janeiro: Multifoco, 2011.

Sobre a autora:


Samantha Abreu, 1980, nasceu e ainda vive em Londrina, Paraná. Estudou Letras na Universidade Estadual de Londrina e cursa Marketing pela Universidade de Uberaba. Já foi publicada em antologias, em sites de literatura como Cronópios, Germina e Escritoras Suicidas, além de revistas literárias como a Coyote, Minguante, Lasanha, entre outras. Tem um projeto de vídeo-poema no Youtube, escreve no blogue http://samanthaabreu.blogspot.com/ desde 2004 e também no blogue da sua série http://mulheressobdescontrole.blogspot.com/. Fantasias para quando vier a chuva é seu livro de poesias, lançado em janeiro 2011, pelo selo Orpheu da editora Multifoco.