segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LANÇAMENTO DE : a palavra é E fantasias para quando vier a chuva NA LIVRARIA DA SILVIA


Nesta quinta, 27/Janeiro, Samantha Abreu e eu...rs...Beatriz Bajo faremos novo lançamento dos nossos livros "Fantasias para quando vier a chuva" e ":a palavra é" (integrante do box tríade).
O lançamento será na Livraria da Silvia, a partir das 19:30h.
A Livraria fica na rua Belo Horizonte, 900 (esquina com Pio XII).
A gente tem muita coisa bacana pra te mostrar lá, inclusive uma discotecagem com o Dj Loof Mayanga.

Esperamos você!

beijobeijo

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O SUSSURRO NOS VÃOS DOS DIAS

O SUSSURRO NOS VÃOS DOS DIAS

impressões sobre Outros Barulhos, de Reynaldo Bessa


Eu não sabia o que ia acontecer até ler este livro

posso dizer que ele não saía da minha bolsa

e era um atrevimento de espionar o que de tão meu poderia caber

ao seu lado – tudo bem, com meu consentimento –

mas eu estava totalmente

ingênua nisso

em relação ao sopro que ele exerceria sobre meus dias

silenciosos.

É isso...o barulho de Outros Barulhos vem de seus olhos

refletidos nos de sua mãe

e das palavras, sempre elas que

“se chocam no ar, outras rolam pelo chão” (30)


O ritmo do poeta-músico é forte como a gravidade

da nota acertada no meio do peito-livro

– que “se enche de universos” (86) –

em que me debruço

ao mesmo tempo em que desliza tênue sobre as ideias folhadas

assim dispara Reynaldo: “Escrevo/ porque sou viciado/ no movimento/

das incertezas" (83)


e foi então que ele (o poeta) disse-me com a palavra

mais deslavada, assim, numa audácia de trincar os olhos

os seguintes versos requintados:

"construo bombas para um dia

explodir os

seus silêncios" (94)


ok! explodir meus silêncios faz parte dessa arquitetura

besseana de deflagrar meu assombro diante de sua obra

haja vista que “isso não é um poema é uma vida, a dele./

há sangue nas entrelinhas.” (grifo meu, 114)

a poesia de Bessa é arrebatadora exatamente por isso,

porque é de uma sinceridade comovente, à espreita da vidinha,

aquela que está ao alcance de qualquer um que a olhe com os canais

do estranhamento ligados pela intimidade com o arrepio do existir


falar de Outros Barulhos não é difícil pelo seu imediato

reconhecimento no contexto literário,

nem porque Reynaldo Bessa é um músico e compositor talentoso,

com especial habilidade para tratar de palavras e sons

mas, porque agora ele lida com outros barulhos, os de dentro

dentro desse silêncio atordoante que é a poesia,

porque ele trabalha com o silêncio que dói

que entala, que nos engasga...como diz:

“e esse mundo preso na garganta que não desce nunca?” (27)

um mutismo que pode nos destronar,

mas também pode ser construtor, no seu caso, de mundos outros


o poeta escolhe versos curtos, flashes cotidianos

embaçados pelos tempos que se embaralham dentro

da vida: “apenas um dia/ que despencou do/ calendário” (37)

e essa vida é recheada de reveses, desapontamentos,

desencontros, e demasiada sensualidade.

tão adaptado ao trabalho manual de pegar as palavras,

tropeça com a pele de palavras que escrevem o corpo desejado:

“seu corpo

é o único argumento

que não sei

refutar” (104)


ainda, descreve um coração insubordinado, relutando

com as profundezas de um ser compartilhado consigo

próprio. Reynaldo oferece-se partido ao presente,

“meu coração é um filho rebelde

ouve música às alturas, usa piercing,

fala estranho e está cagando pra mim.”,

em que peleja entre o racional e o emotivo,

novamente conjuga tempos e transita

entre os papéis hierárquicos existentes

na instituição familiar, tão aclamada neste livro

de ascendências


no entanto, há momentos de declinações flagrantes

que perturbam nossas percepções como “uma notícia estupidamente vermelha,”

deflorando a banalidade dos dias: “é dura feito pedra e/ voando veloz estilhaça a/

janela dos meus sonhos (53)

na obra que caminha em busca de alcançar o espectro da

paternidade, insígnia desfraldada pela voz tão proeminente masculina

dos versos de Outros Barulhos, o poeta conta que se lembra bem

apenas de um homem:

“costeletas aparadas e

cheirando a creme de barbear

caminhava com o andar que agora é meu

trazia os olhos longe, um sorriso torto e

estradas entre os dentes...” (88)


morando entre adeus adiados, Reynaldo nunca se despedirá

da fragilidade pueril de seus tempos miúdos

porque carrega a delicadeza

no colo dos versos: “meus pés balançavam as estrelas,”

e entende a brutalidade da vida sublimada na poética

das sutilezas: “como pode alguém com fome/

ter medo de relâmpagos?” (18)


Bessa fabula exatamente relâmpagos neste livro.

há momentos de versos cintilantes que

permanecem latejando por dentro

dos entendimentos

ou resplandecendo onde não se entenderá nunca nada

pois, se o poeta diz: “seus olhos/ são meu livro de cabeceira” (107),

eu digo que seu livro está na minha cabeceira,

de olhos desabotoados

comendo minhas quietudes,

vasculhando o que há na minha bolsa

e não parará de fazer uns, certos, vários, todos

os mesmos ou outros barulhos.


referência:

BESSA, Reynaldo. Outros Barulhos. Belo Horizonte: Anome Lvros, 2008



sobre o autor:

Reynaldo Bessa é cantor, compositor e escritor. Cinco discos lançados. Lançou seu primeiro livro de poemas "Outros Barulhos" em 2008 (Prêmio Jabuti 2009) que concorreu ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009.